sexta-feira, 14 de maio de 2010

Passavam da meia noite, em um Subway qualquer...

Por algum motivo a conversa enveredou para filosofia. Estávamos em seis apertados, sentados em uma mesa e alguém, que chamarei de Keda como alcunha meramente ilustrativa, pergunta: “O que você sabe sobre Platão e Socrates”? e assim foi. Nada melhor que conversar sobre filosofia, mas como sempre, falar de filosofia no passado, quando você é um dos únicos que entende sobre o assunto em uma mesa, vira um monologo, sempre comentado, com opiniões e sugestões de momentos vividos que refletem o tema, mas em grande parte um monologo. Serve para relembrar essas coisas que quase nunca vem a mente quando se precisa.
Mas, em um momento, a mesa muda de posição, um de meus amigos, que chamarei de Frajola como uma alcunha meramente ilustrativa , faz a pergunta crucial de toda uma existência “mas afinal, pra quer serve essa merda toda”, como merda entenda o conceito filosófico geral, a historicidade das idéias e o contexto onde tudo isso se encaixa. Merda, para ele, é simplesmente todo o estudo do conhecimento, o descobrimento humano, o alto conhecimento e a elaboração de problemáticas para a sociedade. Merda é o ápice do conhecimento humano, o que nos difere um dos outros, o que nos faz humanos por essência e por natureza.
Na tentativa de responder parece não haver palavras simples para conceituar toda essa merda, que no fim, torna-se uma merda mesmo, sem sentido e ou qualquer relação com a realidade. Nisso as opiniões se diferem, a discussão sai dos eixos e parece que não vai voltar pro lugar. Socrates e Platão ficaram lá trás de Descartes, Kant e Nietzsche, a filosofia correu para o canto do quarto no meu cérebro e lá ficou, escondida e acuada por toda a historicidade teórica que eu tenho bebido em larga escala nos ultimo dias. Nos saguões com altos pés direitos, com cúpulas e abóbodas cinzas e escuras, com lindas tapeçarias vermelho e laranjadas que formam minha mente somente ecoava “mas pra que serve essa merda toda?”
Não vou negar, tentei responder alguma coisa, algo como “a filosofia serve para entender das coisas, do ser humano, do comportamento, da existência em si, da própria realidade”. Uma amiga retruca dizendo que não “a filosofia é o conhecimento de si mesmo”, concordo com ela, mas não discordo de mim. Minha namorada, com veemência coloca “é o estudo do conhecimento”. Tendo articular que todos estamos certos, mas fica confuso. A utilidade da filosofia ainda fica algo etéreo,sem sentido aparente. Vejam bem, meu amigo Frajola é um tecnólogo, algo muito próximo de um engenheiro. A filosofia tem que ser algo como uma ferramenta para que ele entenda.
Obvio que na hora Foucault corre para o esconderijo mais recluso no pique-esconde da busca por informações na mente. Afinal, ele fala que Nietzsche é como uma caixa de ferramentas, e que dele devemos tirar aquilo que nos é útil. Obvio que ele usa essa explicação para um uso teórico de suas pesquisas, mas e daí? É uma boa resposta, a filosofia como ferramentas para compreender a vida. Mas claro, mesmo essa resposta fica complexa a alguém que não se afoga nos grandes pensadores. Eu precisava de algo mais tangível.
Bom, como dizem, fui dormir com essa barulho. Merda merda merda. Estava quase olhando para meus livros na estante como grandes enfeites inúteis. Porem, lendo Michel Onfray, “A Política do rebelde”, em quanto ele fala do âmago revolucionário e as necessidades do homem, em uma de suas ode ao Maio de 68, ele coloca algo que calou fundo dentro de mim. O homem tem duas fomes vitais para sua existência, a fome física e a fome de conhecimento. Não há como o homem viver sem as duas coisas, a falta de uma delas o faz se sentir incomodado.
Tive que parar e refletir sobre isso. Uma pena não poder acender um bom cachimbo, pegar um café expresso e meditar sobre. Mesmo assim, me reclinei no espaldar de minha cadeira quebrada e pensei: “Porra ta ai uma boa verdade”.
É difícil achar verdades, e mais difícil ainda achar alguém que as fale. Admito que não estava indo lá com a cara do Onfray, ele é anarquista, o que é bom, e Nietzcheano, o que é muito bom também. Mas o cara usa muita imagem em seus textos e sempre volta pro Maio de 68 que torna tudo meio repetitivo. Mas nessa o cara acertou na mosca.
Duas fomes, e uma dela, um bom prato principal é a filosofia. Se refletir não há como um homem viver sem conhecimento, para tudo ele tem que saber algo. Para pertencer há um grupo de amigos, para se inserir no mercado de trabalho, para entender como sobreviver. Tudo envolve conhecimento. Desde possuir relações sexuais, até para questões mais cotidianas. O conhecimento é vital para nossa existência, a falta dele incomoda. Quando estamos em uma roda de pessoas, e elas estão falando de algo que não sabemos, parece que tudo está estranho e fora de contextos, parece que nós estamos fora de contexto.
Quando não temos tais conhecimentos e somos famintos a eles porem não saciamos nossas vontades, nos afastamos e viramos pessoas mesquinhas e egoístas. Quase como diz Platão sobre beber de mais no rio Lep. “Coisas” (conhecimento, ações sociais, relações, etc...) tornam-se distantes e sem valor para nós, porem, o desconhecimento nós faz pessoas menores. Não saciar é como uma pessoa que fica com raiva quando com fome, ou muda seus hábitos para saciar a fome. Algo como “cara feia pra mim é fome”.
Creio que quando mais nos aprofundamos na metáfora mais forte ela se torna. Curioso.
Para isso que serve a filosofia. Para saciar esta fome, para levantar questões e responde-las. Para incomodar e fazer pensar. Para nos instruir e mover.
Eu, particularmente, gosto de comer bem, comida mesmo. Gosto de sentir sabores e texturas, apreciar uma boa bebida. Gosto de comer. Como leitor tenho o mesmo defeito da gula, pode ser uma erro um acerto, quem sabe? No fim o importante é ser feliz. Mas essa metáfora caiu muito bem. Filosofia serve para preencher o vazio da mente, matar a fome.
O resto, é especulação.

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