Não sei como funcionam os sonhos. Mas hoje tive dois dos quais eu consigo me lembrar. Raramente me lembro do que sonho, dos poucos que acontecem, eu tento lembrar tudo, nem que eu tenha que montar eles novamente, do meu jeito, durante o dia.
Hoje foi perturbador. Foram dois sonhos por que um foi um sonho confuso e perturbador e outro um pesadelo revelador e perturbador. Vou tentar descrevê-los aqui, com certeza ficara muito confuso, com falta de informações, mas bom, acho que pode valer à pena.
Tudo começa em uma mansão repleta de mulheres de pouca roupa, loucas para fazer sexo. Tudo na verdade é uma espécie de filme pornô no qual eu sou o diretor. Ando pelos corredores repletos de escuridão e luz vermelha para todos os lados. Na verdade, grande parte da mansão é composta de corredor. Está casa é comum em meus sonhos, não sei definir onde e quando eu entre em um lugar assim, mas é perturbador sempre. Repleta de espelhos, esquinas espelhadas e portas com halls de entrada fundos e pouco iluminados. As portas de madeira com números pregados. Como se fosse um hotel, mas sempre tenho pra mim que é uma casa, uma única casa e, normalmente, ela me pertence, é este o caso no sonho.
Há correntes e tiras de couro no teto, e mulheres nuas correndo de um lado para todos os lados. A personagem principal é uma mulher grande, com coxas grossas e seios fartos. Uma bunda grande também. É ela que apresenta os quartos e as convidadas. Tudo parece confuso e corrido. Fico sempre irritado por não conseguir ângulos bons e xingo a produção por me meter nessa furada. Tudo parece mais um reality show do que um filme propriamente dito.
A personagem principal não é querida pelas outras moradoras da casa. Quando todas vão para uma festa em um quarto principal, ela fica de fora. Até que, não sei como nem por que, ela entre e ofende uma mulher que parece uma freira. Há um desentendimento. As coisas se agitam, uma orgia começa, e eu estou envolvido nela. No fim, tenho que voltar ao trabalho, me sinto alcoolizado, mas sigo a atriz principal. Ela está em um quarto que parece uma academia, acariciando um consolo grosso, comprido e macio. O curioso é que ela não brinca dentro dela com o brinquedo, mas fora, como se fosse dela, algo como se ela desejasse que aquele membro fosse dela. Ela sente prazer com isso. Ela fala isso comigo, que sente inveja de mim por eu ter algo que ela gostaria.
Quando entra no quarto a freirinha, ela se assusta, diz que é por esse motivo que as outras meninas não gostam dela. Não gostam do jeito como ela olha para elas. Por ela não aceitar quem ela é.
Em uma conversa meio confusa, por que meus sonhos nunca tem sons, mas interpreto como sendo uma forma de sedução da atriz para com a freirinha, na qual a freirinha acaba sendo seduzida e, de alguma forma, o membro de brinquedo se acopla na atriz que faz um sexo muito confuso com a freira, pois o membro parece ser feito de água e preenche a freira de uma maneira muito confusa. Mas que parece dar muito prazer as duas.
Ai parece que tem uma pausa, e eu vou para um quarto icônico (para mim, pois parece o quarto de um escritor) onde eu vou pensar sobre tudo, em como trabalhar com isso tudo, repensar roteiros, pois essa atriz não era tão importante, mas ela parece ter algo a dizer. Em fim, eu sei que o sonho mudou para outro por causa da mudança de luz. Esse sonho confuso era escuro, mas colorido, agora estou em um lugar iluminado mas em preto e branco, e isso indica que estou em um pesadelo.
Nunca aconteceu isso comigo, digamos que tudo aconteceu em plano seqüencia, um sonho foi para outro. Eu ainda estava na mansão e isso era tudo que indicava que era o mesmo sonho. Mas não havia mais as meninas, não havia mais luzes vermelhas nem nada. Somente alguns amigos me contando as coisas horríveis e estranhas que aconteciam naquele lugar.
Era minha casa, eu ria mas me sentia incomodado. Nos dois momentos eu sempre soube que era um sonho. Há anos que não me permito sonhar sem saber. Quando novo eu tinha pesadelos diariamente. Sempre acordava impressionado e tal. Acordava esticando a mão ou rolando na cama me esquivando de alguma coisa. Ou pior, me empurrando com o grito preso na garganta, olhando para as sombras do quarto com desconfiança e indo ver TV durante todo o resto da noite.
Ultimamente até que tenho tido esses sonhos confuso, normalmente acordo sem lembrar. Mas sempre sei que são sonhos, e me deixo levar pelo prazer de tentar entender o que se passa na minha cabeça. Não sei se isso acontece com todo mundo, mas acontece comigo.
Em fim, estava eu no quarto, e os amigos ou pessoas, por que, diferente dos outros sonhos, eu não reconhecia o rosto de ninguém, normalmente os rosto eram turvos ou escuros, no caso do sonho das mulheres os rostos eram sempre turvos, no pesadelo era negros de sombras. Nem aquela sensação de saber quem são mesmo sem saber o rosto me veio, eram só pessoas que eu deveria confiar, como em uma história de Edgar Alan Poe.
O fato é que bebemos um pouco e (novamente fazendo algo que nunca fiz em outro sonho) saímos da mansão, e fomos meio bêbados por uma floresta ao redor da mansão até uma casa de madeira atrás da mesma. Me lembrou um pouco uma das casas que imaginei ao ler “O Valete de Espadas” de David A, Daniel, mas não sei se era.
Em fim, neste casa, um desses amigos falaram que a muitos anos atrás minha avó tinha aprisionado uma garota naquela casa de maneira, e que aquela casa escondia muito mistérios. Porem, que muitas pessoas da vila próxima a mansão ou os antigos caseiros iam até aquela casa e estupravam a menina e que ele estava afim de dar uma fodinha hoje.
Ele foi em direção a casa. Eu fiquei pensando, achei que era uma história para me impressionar ou algo assim, mas senti algo maligno naquela casa. Estávamos em três, ele entrou na casa, e nunca mais voltou. Fiquei preocupado, uma chuva forte começou a bater, dei a volta na casa e vi, na janela de traz, uma menina apoiada em uma bancada ficando inteira enquadrada na janela, ela olhava pra mim com um sorriso. Ela tinha uma calça preta, uma roupa preta ,um rosto muito branco, olhos negros e um cabelo longo meio ensebado e preto, ela olhava pra mim fixamente, não lembrava a Morte no Neil Gaiman, mas se passaria por ela tranquilamente. Meu outro amigo saiu correndo. Neste momento uma luz brilhou, no que descobri, uma janela abaixo da menina. Ela brilhava para o lado e não para fora da janela, como uma lanterna, mas eu sabia vir da mão de alguém, a palma da mão de alguém. A menina falou “Não olhe para a luz”.
Neste momento eu deixei de saber que era um sonho, a presença daquela menina me prendeu e a minha curiosidade me deixou absorver pelo sonho. Novamente, coisas que nunca aconteceram, ela falou e eu me perdi no sonho.
Sai correndo, dei a volta na casa, e abri a porta e vi que tinha uma sala escura que dava para algumas portas, eu sabia que em uma delas estava à menina nas outras eu não tinha idéia.
Voltei para a mansão em busca de ajuda e novamente, voltei em três para a casa de madeira, na janela de trás. A menina estava na janela parecia ler alguma coisa, mas não olhava para fora. Fazia frio, chovia. A luz piscava, e os dois que estavam comigo ficara cada um de um lado da janela tentando olhar. Eu me mantive na mesma distancia de antes, um pouco distante. Parecia que a câmera tinha sido ligada e não tinha sido movida. Eu via os dois tentando olhar pela janela de baixo e não ver nada. E falavam que estava escuro de mais pra ver, mesmo com a luz piscando.
Um deles me falou de uma história antiga, que uma mulher talvez minha avó, tinha olhando a luz de frente, e tinha morrido, ali mesmo. Muito estranho. A menina confirmou a história, ela não sabia também de nada, mas sabia que a luz era especial.
Eu falei que ia olhar, eu tinha uma idéia, eu queria saber o que era. Falei que eles tinham que me tirar dali se algo acontecesse, eles prometeram que sim, a menina ficou olhando, a mão se iluminou para fora da janela, e eu vi a luz. E tive uma revelação. Eu, particularmente, não sei o que era, mas só sei que eu voltei a ter consciência de que era um sonho, e que, pelo que eu sabia de H.P. Lovecraft, que sede de mais ao conhecimento acaba ficando louco. Assim, eu fichei os olhos, e sai da direção da luz, e as pessoas ficaram me olhando, e eu fiquei bem, e a luz ficou brilhando para dentro do quarto novamente. Eu sentia que ela, a luz, sabia que eu tinha vencido, mas ela sorria pra mim. De alguma forma ela sorria. Não sei como. Só sei que dei a volta no quarto, e abri a porta da menina e ela olhou pra mim e saiu andando. Falou que isso podia ser a coisa mais idiota que eu faria. Mas que achou certo eu fazer. E saiu pela floresta.
Eu sai também, voltei para a mansão. A única coisa que eu tinha posto da minha mente era que eu não devia me importar. Que eu devia me manter indiferente a tudo isso e manter feliz com o poder que eu havia ganho. E vivi a vida durante anos, prosperei, ganhei riquezas, fiz família, e sempre me vinha à mente a luz brilhante da janela em baixo da menina. Eu tentava esquecer e não me importar. Até que fiquei velho, comprei um moleskine e comecei a fazer anotações. Eu sabia que os personagens do H.P.Lovecraft escreviam os diários, e eu ia fazer um para alguém um dia me entender.
Escrevi toda a história, da menina da janela de cima, da luz da mão de baixo. Do que eu senti ao ver a luz, de eu ter fechado os olhos. E nesse momento eu me senti conectado com a mão. Com o que quer que fosse o portador daquela luz. Senti-me uma marionete dele, alguém em seu poder. E que tudo que eu consegui foi graças a ele, e eu não era nada.
Então começou um jogo mental. Eu pensei que, depois de anos, por eu começar a pensar no assunto, um elo empático deve ter se formado, algo que não existia antes, que eu estava bem de vida e isso bastava e, se eu fosse mesmo uma marionete, quem não era? Eu tinha poder, felicidade, riquezas e isso bastava, eu ia morrer um dia, e nada mais ia importar.
Então senti medo pelo meu diário. Senti medo que alguém lê-se e se torna-se um novo boneco manipulado. Pensei que eu deveria resolver isso antes de morrer. E que eu deveria saber se eu era mesmo manipulado. Reverti minha herança, me livrei de tudo que me fazia feliz. Esperei o momento certo e voltei a ser um miserável, pois sabia que assim ninguém podia me tirar nada e nem fazer alguém que eu amasse sofrer. Afinal, mesmo com filhos e amigos eu sempre fui um cara sozinho. Isso era algo do meu sonho, parece que eu me controlei a vida toda para esse momento.
Então, me fodi pra achar a mansão novamente, e os novos donos não queriam me deixar entrar, e nem sabiam de casa alguma nos fundos. Mas ainda moravam os caseiros, da casa, ou os filhos dele, em fim, eram os mesmo personagens. Talvez a menina tenha me ajudado a entrar, não sei, só sei que voltei para ver a mão com a luz, consegui ver a casa, mas não tinha nada. Entrei pela porta, e ninguém, as porta estavam lá, abertas, e sem ninguém.
Parecia haver um esqueleto, ou algo assim, mas era só longas sombras. Então eu voltei a escrever o diário, esperando que alguém, com mais juventude e disposição o encontrasse diário e resolvesse esse mistério. Pois era fascinante, algo tinha acontecido comigo, ouve a menina que desapareceu com meu amigo, mas ela era sofrida e ela merecia ser livre. E ouve a luz na palma da mão, e o conhecimento que eu recebi. Essas coisas existiam e deviam ser reveladas ao mundo. Mas tive medo pelas pessoas próximas de mim, tive medo de entregar isso para alguém e ser o responsável por condenar alguém para sempre. Então eu ia deixar isso em uma biblioteca, perdido em algum lugar sem catalogação. Para na aleatoriedade da vida ele fosse encontrado. Se é que existia aleatoriedade na vida. O que quer que fosse pra ser será. E eu acordei.
Passei o dia tudo pensando nisso, nos dois sonhos e em mim mesmo. Não cheguei a muita conclusão. Só entendi os motivadores dos livros de H.P. Lovecraft que fazem alguns anos que eu li. Eu tenho visto muita pornografia na internet, talvez. E que, no fim, sonhos são muito bons para mexerem conosco e parecem nos forçar a uma reflexão de nós mesmos.