terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Into the Line

Engraçado. Em uma fila nos sentimos sozinho. Sozinho em uma multidão que estão fazendo praticamente a mesma coisa que você. Diferente do ônibus, onde estamos todos indo para o mesmo lado, mas saindo ou indo para coisas diferente, ou pensando em diversidades mil, na fila não há desculpa, podemos estar comprando por motivos vários, mas estamos comprando, no mesmo lugar e, na maior das coincidências, acabamos um do lado do outro, na mesma fila.

Não reclamo de não falar com ninguém quando estou em uma fila. Não tenho nada pra conversar, nem sei se a pessoa na minha frente leu o mesmo livro que eu, ou gostou dos mesmos filmes. Mas estamos ali, quase como um casal de namorados de tão próximos. Talvez trocamos um desculpa, por esbarrar na pessoa, mas isso nem foi percebido.

Uma sensação curiosa essa. Lembro que estava na fila, com “Cães de Aluguel”, do Tarantino, na mão, feliz da vida, e na minha frente uma senhora. Ali, andando no mesmos passo que eu. Não era uma senhora, era uma mulher formada, provavelmente mãe de família, vai saber, não conversamos. Mas quando estávamos para entrar naquelas baia repleta de doces e produtos, onde não teríamos mais como sair da fila ela, delicadamente, colocou a cestinha no chão, e saiu. Saiu sem olhar pra trás, sem abaixar a cabeça, e saiu. Porta a fora, em direção ao mundo. Sumiu.

Fiquei olhando a cena, olhei a cestinha, não estava muito cheia, alguns chocolates e coisas. E ela não estava junto de sua cestinha. Pensei em avançar alguns passos e assumir o posto que antes ela ocupava. Mas achei que poderia ferir um mártir. Uma heroína. Alguém que conseguiu fugir, da fila, do consumo e de outros grilhões.

Com o tempo, fui obrigado a dar alguns passos. Tudo foi para o esquecimento, aquela vaga vazia, aquele momento único que, talvez, somente eu tenha percebido. Entrei no matadouro, me seduzi por umas gominhas. Paguei. Lá estava eu. Pagando pelo que comprei. Como todo mundo.

Depois, sozinho novamente a luz do dia. Com o filme na mochila, ao lado da gominha. Não sei dizer o que senti. Mas pensei naquela mulher. Os motivos que a levaram sair da fila e caminhar imponente para fora deve ter sido vários. Talvez nem um pouco nobres como eu imagino. Talvez nem a postura tenha sido tão altiva, eu que tenha imaginado posteriormente tamanha desenvoltura. Mas a poesia do ato, a imagem marcaram minha retina da maneira profunda.

Eu acho que “Into the Wild” mudou a minha vida.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Resenha - Into the Wild

Na Natureza Selvagem
Direção e roteiro: Sean Pen
Ator Principal: Emile Hirsch
Contem Spoylers a rodo, como oo final do filme, por exemplo.
Acabei de ver “Into the wild”, dirigido e roteirado por Sean Penn.
Pensei em fazer uma resenha, durante todo o filme fui pensando em como fazer. Desejando também seguir o caminho de Christoher Johnson McCandless. Cada acontecimento, os planos, a perseverança. Todo jovem de 20 e poucos anos se sente tocado. Ainda mais eu, que sou montanhista de longa data, já quis me refugiar nas montanhas durante meses para não me preocupar.
Muitos filmes falam sobre viajar pelos estados unidos, cruzar de Nova York a Califórnia. Sentir a poeira do asfalto, viver. Mas ir para o Alaska, somente duas pessoas, Alex SuperAndarilho” (codinome do personagem do filme) e Homer Simpsons, mas não vamos comentar sobre ele agora.
Alex é um mito. Maior que Tyler Durden, Clube da Luta, que reforça a violência humana e a estupidez com base no consumismo, no egoísmo e no narcisismo. “Into the wild” é mais que isso, é o bom selvagem moderno, não é o confronto com nos mesmo, mas encontrar nossa essência maior na liberdade puramente solitária. Aquela que sentimos ao cantar alto no meio da rua, ou rir de nos mesmo, ou terminar de ler um livro deliciosamente bom. Chorar pela conquista de um amigo. Conquistar um morro desejado. Ser simplesmente feliz.
A cada passagem do filme, a cada personagem característico que encontra e é tocado pelo jovem, movido, trazido para confrontar sua própria realidade e aprender algo, aprendemos as setas de um mapa precioso. Ao mesmo tempo em que as personagens aprendem algo com o garoto, nos também aprendemos com aquele maltrapilho barbudo com cara de Che Guevara.
Os problemas familiares, a relação da irmã com ele. O termino da faculdade, as referencias aos autores que ele tanto admira e os lê, freneticamente, para validade sua obsessão. Tudo muito bem escrito e justificado, dão base ao filme. Os olhares dos personagens para as câmeras, as narrações em off, as citações. Tudo trazem um brilhantismo psicológico ao filme, tudo nos faz crer que o filme está sendo feito para nos, para nos dar um recado. Um recado forte, quase impossível de entender. Afinal, por que um garoto de 21 anos iria largar tudo e partir rumo ao Alaska, sem avisar ninguém, nunca avisar alguém de sua familia e ficar lá 2 anos?
O interessante é toda o percurso, o que ele aprende, o que ele vive. Ele chega quase ao México. Trabalhando, aprendendo com pessoas a arte de viver, confrontando suas idéias sem nunca esquecer o que realmente deseja, um desejo maior que ele. Um objetivo mais importante que tudo. E ele o segue até o fim seu sonho.
Todo o filme é base em fatos reais. Na vida de Christofer Johnson McCandless. Com isso, esperava um final feliz, que me cativaria a sorrir a tentar também. Viver no meio selvagem. Assim que eu me formar. Mas ele nos brinca com um final brilhante.
A história leva nosso herói moderno a explorar os limites da sua vida, indo contra a lei e a ordem quando elas impedem de realizar seus feitos. Ele experimenta a vida, com todo o direito de fazê-lo. Trabalhando como piloto de uma colheitadeira gigante, conversando com o patrão sobre a vida, sobre os seus objetivos e sobre a sociedade corrupta. Vendo-o ser preso por um cerco policial incrível em quando mijava. Faz Hafting sem nunca antes ter entrado em uma canoa, sem capacete, e seguir remando até o México. Conhecer um casal Hippie, pegar carona com eles, e ajudá-los a resolver seus problemas. Alem dele superar seu medo de água.
Ele também se apaixona por uma vizinha dos Hippies, depois de uma epopéia de acontecimentos em que ele volta a encontrá-los Mas mantém sua postura de super-homem, e novamente nos ensina alguns valores norte americanos padrões. Segue na estrada novamente e encontra um velho que lhe conta sua história e ele a dele. Ficam amigos, aprende a curtir e a pirografar em couro, também lhe ensina o valor de perdoar. O velho pede para que o garoto seja adotado por ele, e ele diz que conversarão depois que ele voltar do Alaska.
Tecnicamente a ultima pessoa cativada por ele é o homem que lhe da carona até o Alaska, no meio da neve, numa das primeiras cenas do filme, e lhe dá umas botas para o caso dele afundar na neve.
Todos que Alex encontra possuem histórias marcantes, vidas sofridas e sedimentadas em dor e conceitos formados. Que são tocados pelo conhecimento e vontade do garoto, que vai ao Alaska fugir disso tudo. Todas sentem a presença dele em suas vidas, e todos sentem que marcaram sua vida.
Ele encontra o Ônibus Mágico, onde mora por quase quatro messes, depois de quase dois anos longe de casa. Ali ele estabelece seu ninho no meio na natureza. Nele ele caça, dorme e escreve suas anotações diárias, re-le seus velhos clássicos, e vive a vida como imaginou, sem titubear um momento. Porem, quando lembra de tudo, com um pouco de fome, decide voltar, mas não consegue. Pois o rio está muito cheio, e ele se encontra cercado pela natureza. A fome fica mais forte, e ele encontra a resposta em seus livros. E na caçada por vegetais comestíveis, confunde uma raiz comestível com uma venenosa, causa paralisia, intoxicação e inanição, e é fatal, e não existe tratamento.
Como o filme é baseado em fatos reais, vocês espera que ele saia bem. Que ele viva feliz. Pois ele conta a história, a história é dele. No entanto, a dor e sofrimento fazem ele olhar o céu, e lembrar da fala do velho. E ele fala o que ele sente. O que ele pensa. Uma frase linda e cativante, justificada por, provavelmente, sua ultima anotação “a felicidade só é verdadeira quando compartilhada”. E a câmera sai do ônibus mágico. E o letreiro sobre. E eu chorei. Como choro agora, quando termino de escrever isso.
O filme é lindo, cativante a qualquer um que deseja a felicidade como caminho ideal e a liberdade como meta. Não as vendo como conceitos abstratos em uma sociedade estranha. Mas como tangíveis e possíveis. Nada manos que a felicidade, nada mais que a liberdade.
Depois de ver o filme sentei aqui, e escrevi.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Um filhote de urso polar vagava pelo Ártico e pensava “Como seria bom uma raspadinha de morango”. Imaginava, em quando se afundava na neve macia e branca, o gelo ralado, a groselha sendo jogada por cima do copo com o gelo muido, o canudinho colorido, e ele sentado olhando a imensidão do oceano enquanto bebia sua delicia gelada.
Com o tempo, o desejo foi assumido um outro sentimento. Não mais o desejo infantil, mas o desejo selvagem. Ele falava para si mesmo “Eu faria QUALQUER COISA por uma raspadinha de morango”, via-se roubando uma, correndo com ela o mais longe que pudesse, e sentia um sabor muito mais saboroso que aquele em que curtia sentado em frente ao oceano.
O sabor gelado o fazia salivar, seu pelo arrepiava com o paladar tentando recriar o gosto imaginário, ele lambia a neve na tentativa de fingir um sabor inexistente. Parecia sentir o cheiro em todo o canto e ouvir o som característico de uma raspadinha sendo feita. Ele vagava, impaciente, “Eu faria qualquer coisa por uma raspadinha de morango, QUALQUER COISA” e rugia interiormente validando suas palavras. Socando a neve com uma fúria que nem ele sabia possuir.
Em um momento, ele deixa de olhar para dentro de si, remoendo um instinto novo que sentia, e viu. Ali, não muito longe. Ao alcance de suas garras afiadas e assassinas. Uma foca. Uma foca pelada comum ao sul de onde ele se encontra (em fim, quase tudo se encontra ao sul), ela bate suas patas frontais, faz o som característicos de foca (huu-huu) se abaixa, e chupa no canudinho azul e verde, o néctar da raspadinha. O filhote de urso fica atônico, impassível admirando a cena. Aquela raspadinha, não somente era de morango como tinha leite condensado com coco. Dava pra sentir o cheiro, o sabor, a consistência. E ali, a foca, feliz e contente, olhando a imensidão do oceano, se abaixava, chupava o canudinho elegantemente colorido, e gesticulava novamente, feliz da vida.
O filhote sente o sangue ferver em seu intimo. Basta avançar, silenciosamente meter uma garrada precisa em seu corpo macio de foca, morder com a pressão exata a jugular, e a raspadinha seria sua. Só sua. Mas ele não quer fazer algo silencioso. Ele quer sangue, barulho. Desespero, pedidos de perdão. Oh sim, ele quer destruir aquele foca. Suas patas começam a ficar dormentes, ele olha para elas como nunca antes tinha visto. Sente a violência e o poder que tem nas mãos. Sua mandíbula se encontra travada, firme, imponente. Ele sente o ódio em seus olhos, sente que estão injetados com os desejos íntimos que sente.
Ele se prepara. Com seu porte de urso polar. Caminha sentindo cada músculo de seu corpo responder com precisão e agilidade. Ele arrasta as unhas no chão deixando um rastro. Sentia as patas dormentes, ansiosas para o que ira acontecer. Para cada “huu-huu” que a foca feliz fazia, mais instaurava nele um desejo assassino.
Estava só os dois ali, ninguém mais. Na solidão desértica do ártico. Somente o vento balançava seus pelos brancos como as nuvens. Seus dentes estavam a mostra. Um rugido surgia em sua garganta. Ele começava a ficar nas duas patas, ia rugir como um Urso Polar Adulto (a única referencia que ele saberia dar) e destroçar aquela coisa negra e oleosa que fazia “huu-huu”. Preparou suas garras. E uma pata grande demais encosta em seu tronco. Ele olha, a foca também olha, ali um urso polar adulto olha para baixo. Um gigante pra ninguém botar defeito. Sua barriga volumosa praticamente faz sua fuça se esconder, dando um ar misterioso e imponente a criatura. Sua presença causa medo. Em algumas culturas de focas, um urso polar significa morte coletiva. Um sinal que os mais experientes nunca tentaram colocar a prova.
Da outra pata, grande, quase do tamanho do urso polar filhote, surge uma raspadinha de morango, com leite condensado e coco ralado. O urso filhote pega, sentindo toda aquela excitação violenta se ir, como a areia de uma ampulheta nos ultimo segundos, mas sem ir embora por definitivo. Ele olha pra raspadinha, olha para a foca, olha para o grande urso, sorri. O cheiro é muito bom, ele olha novamente pra cima. – “Obrigado papai.”. o urso polar adulto sorri, ou parece esboçar um sorriso, e sai andando para onde veio.
O urso polar filhote da um gole meio tímido na raspadinha, e sente felicidade liquida e gelada. E se senta. A foca se senta também. Um do lado do outro. Olhando a imensidão do oceano.
P.S.: Esse conto é uma resposta as pessoas falarem que eu só escrevo coisas depressivas, e achando que, com isso, eu sou um cara depressivo.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Depois de nós

Durango pegou sua velha jaqueta no cabideiro da porta e saiu. Em quanto vestia sua jaqueta surrada sentia o vento frio na sua pele tão velha e enrugada quando a jaqueta. “79 anos”, pensou ele, “79 miseráveis e lamentáveis anos!”. Ele caminhava pela calçada escura do bairro onde ele morava. Lembrava da sua juventude, na vontade que tinha quando olhava os casarões no centro da cidade, o desejo de morar ali. Nos prédios que se construíam. Morar numa cobertura no centro era seu sonho. Agora esta em uma casa pequena num bairro longe, a única que sua aposentadoria conseguiu manter. Depois de ter que vender quase tudo para o tratamento de sua esposa, que acabou morrendo, ha 1h atrás, um dia antes do aniversario de 80 anos dele.

Se existem alguém puto no mundo, hoje, essa pessoa é Durango.

O caminhar faz doer sua artrite. Sua coluna nunca parou de latejar, desde uma travada que aconteceu com ele quando levantavam uma parede em uma construção nos seus 40 e poucos anos. Desde então ele não consegue ficar em pé muito tempo. A aposentadoria veio cedo, o que acabou dificultando a vida do senhor de idade. Seus filhos foram embora tentar a vida, e provavelmente não deram muito certo, já que nunca voltaram. E agora esta sozinho, sentido o frio congelar seus ossos, seu joelho estalar a cada passo, sem contar as costas latejando.

A única coisa que ele trás consigo, é sua Taurus.38. Sua esposa odiava aquela arma, a qual ele ganhou em uma aposta na sua juventude. Uma arma antiga, mas que sempre lhe deu segurança. Ele nunca atirou com ela. E nunca a vendeu, gostava dela, ele se sentia no natal todas as vezes que a polia.

Resmungando, pois esqueceu como se chora, ele adentra o bairro. É sábado a noite, mal chegou a meia noite, e pessoas estão na rua. Ele vê um grupo de vagabundos sentado na frente de uma casa abandonada. Todos eles fumam. Ele passa na frente dos garotos sem dizer nada, puto, mal percebe o que eles estão fazendo. Só passa, só quer sentir frio, dor e ficar o mais longe possível da sua casa. Onde sua mulher se encontra morta, sentada em frente a teve.

“O Coroa, não ta na hora de ir pra cama não?”; “Tem unral pra coxinha?” “Como vai a vovozinha?”. De todos os impropérios, sem motivo ou sentido dos garotos, o ultimo o faz parar. Ele treme, a raiva da falta de respeito e a dor que ele tentava esconder no peito explodem em um misto de fúria e crueldade que ele nunca sentiu.

Ele treme, levando a mão a arma, quando sente alguém tocar seu ombro. “O mermão, jaqueta manera, acho que você não vai precisar dela por muito tempo, vo pegar pra mim”

“Então pega aqui!” – responde Durango, atirando na cara do garoto. A cabeça explode com a proximidade da arma e o calibre. Ele desce o batedor de trás da arma com o polegar, vê os vagabundos desgraçados em pé, levando a mão a boca e falando coisas como “caralho!” “você viu a cabeça dele?” “porra” “minha nossa senhora, mãe de deus salvador, rogai por nos pecadores” e outras merdas do tipo.

Durango aponta a arma pro mais próximo e erra o tiro. Porem, a bala estoura no meio dos garotos que correm assustados, um, com cara de mais burrinho, esta ajoelhado rezando. Os murmúrios de perdão se misturam com as lagrimas e o cheio de urina. O ferro gelado da arma encosta na testa do garoto. O estrondo ecoa pela rua. O outros 3 sairão correndo pela rua. Gritando. Deixando chinelos de dedo e a dignidade pelo caminho.

“Bixas” murmura o velho, que coloca a arma quente no coldre novamente, e segue seu caminho.

Toda a excitação se vai ao sentir-se novamente só. Ele caminha pela rua, mas agora ele chora. Chora como nunca se lembra ter chorado. As lagrimas quente ardem em seus olhos, a boca treme entre o frio e o pranto. Suas mãos duras pela tendinite encontram seus olhos. E ele chora, grita, se desespera. Suas pernas não agüentam mais. E ele cai no asfalto duro. Ele deita e se encolhe, em uma posição fetal, passando a mão no joelho dolorido e ralado. Chora, abraças as pernas doloridas, suas costas doem, e é tudo o que ele quer sentir, dor. A dor do fracasso que ele nunca se permitiu, o lamento de ter feito as escolhas erradas. A ponderação que nunca fez por ser um cabeça dura. Ele lembra de sua infância como nunca antes lembrara. As facilidades, o conforto de chegar em casa e ver seus pais. O carinho. Tudo parece iluminado e quente em sua memória. Nada parecido com o pesadelo oculto e sombrio que foi sua vida adulta. Os erros e desesperos. Ele limpa as lagrimas e elas saem mais e mais. Sente a garganta engasgar com os soluços. O peito vacila em pranto e suas costas dão pontadas, ele quer se mexer, espernear, mas suas pernas não permitem. Ele lembra de tudo que viveu e fez, e só consegue falar, como em um mantra “merda, merda merda...” ele bate a cabeça no chão, ele tenta rolar. Chorando. Ele tenta não pensar nada, ele se encolhe, cansado, sonolento. O frio parece cobrir-lo como a melhor coberta que ele já teve. O chão duro permite sentir aquilo que quer, talvez nunca tenha se sentido mais confortável.

Derepente um chute estoura em suas costas. Somado de outro em seu rosto e no seu peito. Chutes fortes, de pessoas de pés descalços. Um cano de ferro acerta sua cabeça que é seguido por um skate. Ele sente seu braço quebrar. Suas costelas quebrarem, sua perna quebrar. E sangue escorrer pelo seu corpo. Ele sente o calor, mas não consegue reagir, nem falar, nem gritar. Ele sente chutes acertarem sua arma. E a arma bater nele por conseqüência. A dor da lugar a um estado de dormência. Se sente longe daí, num lugar escuro. Vazio e solitário. Ele sabe que coisas acontecem em seu corpo. Ele é espancado violentamente na rua. Mas isso não o incomoda. Não consegue se preocupar. O estado que ele está não é de alivio, nem de elevação maior, provavelmente. Aprece mais aquela hora em que não dormimos ainda, mas não estamos acordado. Ele se sente distante dele mesmo. Cada vez mais. Confuso, assustado e curioso. Talvez seja tudo que ele sinta.

Depois ele não sente mais nada, nada. Nem a sensação de estar sendo espancado, de seu corpo estar em movimento, nem do distanciamento. Ele simplesmente sente, o estado mais primitivo do sentir. E esquece.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Meu amor, minha vida: O crime - 1

Sou um inveterado adorador de Romances Policiais e Livros de Espionagem. Gosto muito mesmo. Sou um fã de ficção cientifica também, penso em ler alguns clássicos perdidos, mas o Romance Policial perpassa minha sede de leitura, vindo desde a infância com aquela coleção “Salve-se quem puder!” e os livros do Doyle que meu pai me dava, até hoje, onde estou relendo Agatha Christie e Jhon Le Carré.
Nunca gostei da Christie, adimito. Quando era novo, uma amiga me passou um livro para ler, com o famoso belga de bigodes empinados, Hercule Poirot. Porem, ele se colocou como sendo melhor que o bom e velho Sherlock Homes! Inadmissível para mim, ninguém supera o Homes. Ele tem classe, estilo, alem de um método muito surpreendente. Depois daquele livro da senhora Christie, nunca mais toquei em nada dela. Hoje, porem, dei uma segunda chance, e valeu a pena. O primeiro dela que comprei para ler foi um, que só depois descobri ser um dos mais famosos dela, “O assassinato no Expresso Oriente”. Brilhante! Não somente o trem, mas toda a história, E o tal Belga me cativou, mandando um homem a merda com toda sua pompa vitoriana. “- Se me desculpar a observação pessoal, eu não gosto da sua cara, Monsieur Ratchett.” CARALHO! Pirei quando li essa frase. O trem era muito bem descrito, até fiquei com vontade de atravessar a Europa nele. Quase desvendei o final de maneira exata, acertei bons palpites, mas não conseguia validar minha teoria, que se provou verdadeira no fim. Com alguns equívocos. Mas foi legal. E a autora da cada detalhe, descreve cada prova, crime e envolvidos de maneira exemplar o que facilita para percebermos todas as possibilidades. Ela omite algumas coisas, revelando somente próximas do fim quando o crime já esta praticamente solucionado, e que muda tudo! Uma forma de manter o final surpreendente, mas faz pessoas como eu, que querem desvendar o crime antes do fim, de mãos atadas com o próprio final.
Agora, estou lendo um que não tenha nenhum detetive famoso da autora, somente para ver como ela escreve de verdade, sei lá, acho importante ver se ela vale a pena para se continuar lendo sua obra. Comprei “Um brinde de Cianureto”, escolhi esse pelo titulo, acho o Cianureto um veneno tão vitoriano, tão curioso e fatal que um assassinato envolvendo ele deve dar pano pra manga. E dá.
O livro não possui detetives, somente pessoas querendo lembrar de uma morte à um ano atrás. Que na verdade foi tida como suicídio, mas as pessoas próximas a vitima começam a desconfiar que ela nunca seria capaz de tal ato, alem de algumas provas que apareceram com o tempo que fizeram questionar a validade da pericia. E assim, no bom e velho exercício de massa cinzenta, provas começam a vir a tona.
O facinante é a construção de personagens, ao todo, 8, e mais alguns quadjuvantes. E todos com sua personalidade única e característica exclusiva. Vilões inveterados, pessoas bondosas e inocentes que cogitam a possibilidade de assassinato, malandros espertos, e pessoas integras desiludidas com a vida, e todas, com motivos para matar a moça! Cada capitulo, com o nome de um personagem começa com “Mrs. X também pensava sobre aquele dia” ou “Sr. X lia o jornal, mas não conseguia parar de pensar em...” muito legal! E nós, dentro da mente de cada um descobrimos coisas doidas sobre cada um, que, na lembrança do outro, no capítulo seguinte ou anterior, desmente essas características ou cria novas que o próprio personagem não sabe que pensam isso dele. E as pessoas interessadas em descobrir o crime nada sabem sobre esses pensamentos, somente algumas provas perdidas em roupas antigas da falecida.
Agora (eu ainda não terminei de ler) apareceu um Coronel Race, que foi membro da M.I. 5 uma espécie de inteligência do exercito, que entende das coisas e esta começando a raciocinar e descobrir, pelas provas e relatos dos interessados as possibilidades de quem é o assassino. Fica fumando seu charuto e pensando.
O legal deste livro é que meio tenta dizer que qualquer um pode ser um detetive e desvendar casos particulares, usando a massa cinzenta, qualquer um pode desenvolver esse misterioso poder dos detetives dos romances.
No livro há frases maravilhosas como “Ninguém se da ao trabalho de refletir sobre as pessoas de sua família, como elas realmente são. Seus familiares simplesmente são, mas o que eles realmente desejam, o que realmente fazem deles pessoas, passam desapercebidos aos nossos olhos, sendo somente seu pai, sua mãe, sua irmã, seu irmão”. Uma verdade muito dura, mas verdadeira. Eu já parei para pensar sobre o que define minha família como indivíduos, mas parei. Na verdade, eu não quero saber, talvez não interesse, o que importa é que são minha família e eu os amos, a qualquer custo.
Ou boa frase é “Ela é o tipo de mulher que tem que ouvir ‘eu te amo’ todos os dias no café da manha”. Explodiu minha cabeça esta frase. Renovando conceitos sobre relacionamentos e mulheres.
Uma característica da autora, presente neste dois livros lidos até agora, é uma pitada de Dostoievski, não sei ela leu ele, ou ele leu ela, ou se são contemporâneos, e não estou afim de validar essa informação agora. Mas os dois trabalham com a psicologia das nacionalidades. Tipo, um italiano usaria uma faca, um inglês veneno, um alemão armas, como os americanos. E segue sempre descrevendo a atitude das pessoas pela sua nacionalidade e condição social. Dostoievski, no seu livro “O Jogador” sempre coloca o caráter das nacionalidades numa mesa de roleta e nas intenções deles com as mulheres. Christie também, havendo frases como “Se foi usado uma faca, foi uma mulher! – Mas foram 12 facadas – Então foi um italiano!” como se isso definisse tudo. O que é bem legal de ler, para nós, brasileiros, uma etnia tão misturada onde descendentes de tudo andam por ai. Surge boas piadas e brincadeiras.
Em fim, Estou me deleitando com os livros da Agatha Christie, e Poirot tornou-se meu detetive belga favorito.
obs.: Pretendo fazer criticas literarias de contos policial sempre que achar que devo fazer uma.

sábado, 28 de novembro de 2009

E o futebol?

--- Sentado comendo uma coxinha com frango e catupiri em um boteco ao lado do cemitério municipal, o único almoço que meu salário pode pagar diariamente. Escuto um trecho de conversa entre 5 velhos, senhores da velha guarda curitibana, ouso dizer paranaense, em uma acalorada discussão sobre futebol, o bom futebol de uma elite curitibana. A conversa me lembrou uma passagem do filme “Há tanto tempo que te amo”, sob a direção de Philippe Claudel, onde em um momento quatro amigos franceses começam a discutir futebol e um critica o time do outro pelo numero de brasileiros que clube possui. --- Os 5 velhos tinham o mesmo discurso, porem, com o numero de cariocas e paulistas que o time paranaense tem. Sou um leigo em futebol, sei por que um impedimento acontece, mas por que as pessoas ficam 90 minutos ou mais naquela correria ainda é um mistério para mim. Enfim para eles, o único time descente da cidade era o Paraná Clube, já que nele tinha o menor numero de migrantes, por outro lado, o time era uma bosta já que esta na segunda divisão. Porem, torcer para o atlético era uma ofensa a moral e aos bons costumes. O que sobrava o coxa, porem, ele não estava nas melhores partidas e o time também tinha a mancha negra de jogadores falando bixcoito. Em um momento, um dos velhos que estava de pé, bebendo um café aguado no balcão indaga.
- Então pra que time ‘cê torce? Já que nada da cidade presta, não vá me dizer que é time de fora?
- Mas claro que não! Sou Operário desde criancinha.
- Mas eu também!
- Ta brincando?
- Tenho a carteirinha aqui pra provar!
- Eu também!
Então um outro da uma risada e fala:
- Aposto que vocês já pagaram pro clube do Coxa.
- Eu já. Depois da partida do trem fantasma, agente tem que torcer pra alguém.
- Pois é. Pro Atlético eu não pagava.
- Eu também paguei pro coxa. – Diz o outro recostado na cadeira.
- Eu pro Paraná. Acreditava nele.
- Mas bom mesmo era o trem. Lembra o primeiro.
- VIVA O TREM FANTASMA! – Brande o outro com o punho fechado em um soco fixo no ar.
- Eu não torci pro Trem por causa dele ser de fora da cidade.
- Eu também. Preferia o Coxa.
- O Paraná era promissor... uma pena, uma pena mesmo.
...
--- Minha coxinha acabou e eu já tinha bisbilhotado de mais a conversa dos senhores. E pensei “cara, eu gostaria de ter uma camisa do bom e velho Trem Fantasma. O terror do campeonato paranaense.”
--- E também fiquei com aquela pulga na orelha... “Pra que merda serve torcer para um time da sua cidade? Existe isso no pensamento futebolístico? Parece uma forma de preconceito xenófobo”

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

O Retorno da Merda

Alo? Alo testando, um dois, testando, senhor, som, senhor sss sss Se fude dois três Quanto tempo? Daria para fazer a conta se pegasse a data do ultimo post, e diminuía da data de hoje, mas quem faria isso? Conversando com um amigo “Daew Nelson, como vai?” Ouvi que alguém lia esse site. E conversando sobre escrever para cá, descobri que outros gatos pingados também entravam aqui. Acho que talvez valha a pena escrever novamente, fazer aquela boa e velha higiene fecal que tanto queremos. Um Mundo Sem Coliformes Fecais. Sim, seria belo. Estava eu, vendo noticia, na verdade, Acabei de entrar em um site pensando “a primeira manchete idiota que eu ler, vou critiar” Dito e feito: Deu no Globo, agora a pouco (14h): “Casos de Aids caem nos grandes centros, mas crescem em cidades menores”. Vou repetir: “Casos de Aids caem nos grandes centros, mas crescem em cidades menores”. NÃÃÃÃO! Sério? Por que será? Pensei comigo, vai que estou sendo preconceituoso. O jornal não apelou para minha ignorância sobre porcentagem e índices populacionais, somados ao fato de que, pessoas na cidade do interior acham que o que acontece na TV só acontece na cidade grande (eu vim de uma cidade do interior, sei do que estou falando). AIDS e Camisinha devem ser artigos de luxo em cidades do interior. Tipo, não estou falando em cidade do interior como essas do Paraná, como Londrina e região, ou Santos em São Paulo, mas cidades tipo, Tarapepatyupaguiatugaiata no interior do Pará (nome meramente ilustrativo), onde farmácia é a dona da esquina que sabe fazer chá. E são essas cidades que a matéria indica. A cidade tem 300 habitantes. Se 3 tinham aidis, e agora, 6 tem aidis, caralho! Agora temos 200% de aumento de aidis! É O APOCALIPSE! As cidades do interior são mais contidas, tem suas preocupações e tranqüilidade. Não duvido que tenha AIDS ali. Mais vai que uma menina prostituta dá prum caminhoneiro HIV +, depois volta pra casa e da pro vizinho apaixonadinho por ela, que descobre que ela faz para viver. E larga ela ao mundo cão, pois o que ela faz não é de deus, e decide que a Carminha da rua de cima é a melhor oportunidade de ser feliz, e 3 anos depois, casam-se e finalmente consomem em um ato de volúpia e amor selvagem, contido é claro, e pronto, mais uma com AIDS na cidade. Agora, a ironia do destino. O senso que pesquisou a parada, entrevista a menina de programa que, após fazer um exame por conselho das amigas da profissão, descobre que tem AIDS, e por isso registra no senso, esta cidade tem 1 pessoa com AIDS. Pronto. 3 anos depois, após a volta do casal de sua lua de mel em Carepepagua, uma cidade com um hotel a 300 km de onde moram, a esposa decide que os dois tem que fazer um exame de sangue, para poder ver como serão os filhos e tal. Afinal, a Carminha é estudada, terminou a 8 serie na escola da dona Margarida, tia do Agenor, que veio da cidade grande. E bomba! Os dois tem AIDS! Triste triste triste. Em fim o senso volta a cidade e entrevista as pessoas, e tal, talvez eles vão no hospital pra saber, não tenho idéia de como é feito isso. Bom, descobrimos que 3 pessoas agora na cidade tem AIDS. Desinteressado com a informação. Anota e volta para sua cidade grande, coloca os dados no computador, e pede para fazer um gráfico com a porcentagem de crescimento em todas as cidades pesquisadas. Para ver a diferença em 3 anos. O gráfico que se faz é aqueles automático do Exel, clicou e fez. E o que temos? 200% de aumento! Muito maior que aqueles 15% de Brasília. Que se foda Brasília! Temos que focar nossos esforços nas cidades do interior. Tendo em vista que. Aquela putinha do inicio da história, morreu 1 anos depois da primeira entrevista correndo atrás de uma moeda que pulou da mão dela e parou na frente de uma Scanea 16 rodas a 120km/h. A Marcinha da rua de cima, ficou horrorizada com a noticia, desquita com o seu marido, e dedica o resto da sua vida a salvar as crianças das comunidades carente ao redor da cidadezinha, para que assim ela seja expurgada de seu pecado e poder ir para o céu, ou seja, não vai dar pra mais ninguém. Já seu esposo, cometeu suicídio após beber quase uma garrafa de 51 inteira, e ir pra casa e se encontrar sozinho no sofá ao assistir Hebe Camargo, ninguém sabe exatamente o motivo do suicídio. Já em Brasília, os 15% de aumento são só das famílias carentes que fazem o teste do postinho e não tem privacidade com as informações e elas são liberadas ao senso. Já a petizada dos hospitais particulares esconderam as informações até do peguinha da escola.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Sei que isso aqui esta meio morto, mas a faculdade e demais projetos tem ocupado nossas vidas ao extremo. Mas comecei a brincar esses dias com umas tirinhas, elas estão aqui: http://www.stripcreator.com/comics/LoboHan/466022 tem muita grafia errada, por que foi vindo de uma brincadeira, mas acho que da pra se divertir, talvez. Tem algumas, vou fazendo novas sempre que tiver uma ideia. Faça você tambem sua tirinha :D O Site proporciona isso, personagens cenarios e balões, tudo para uma tirinha legal. Pra quem naum sabe desenhar, como eu, é um prato cheio :P Divertido é pratico :P

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Que merda de blog. Esses espaçamentos não são minha culpa, ou ele junta todas as linhas como se fosse uma só, ou faz isso. Espero que não prejudique a leitura. (não aguento entrar aqui e ver essas linhas, por algum motivo acho que do alem da web elas estarão arrumadas em um momento qualquer...) Só isso. Obrigado

terça-feira, 12 de maio de 2009

Paris, Século XIX*

Hoje acordei e vi um dia nublado e frio. As ruas de Paris parecem um formigueiro pela movimentação mas um vespeiro pelo barulho. Espiro fundo e junto animo para descer a terra. Esfrego os olhos e me espreguiço como os malditos gatos que tanto odeio. Vou a janela e observo as pessoas que não param de circular de um lado para o outro. Não chegamos na metade do dia e lá estão elas, correndo, correndo e correndo. Pela minha infelicidade moro sobre a galeria Laffayet, a mais repleta de lojas e pessoas na capital. Minha cabeça dói e tenho vontade de me enfiar entre as cobertas como os cachorros que tanto odeio.


Visto meu roupão e saio do quarto. A caseira já colocou o café na mesa e o jornal sobre o braço do sofá. Mas a visão que me enche de felicidade é Le Blanc, o amor da minha vida, a razão da minha existência, o sorriso em meus lábios, o brilho de meus olhos. A tartaruga que esta na minha família a duas gerações. Grande, vistosa e verde. Caminha na velocidade que a vida deveria andar. Olho para aqueles olhos cansado e vejo o sorriso de satisfação em me ver, e também aquela expressão de bronca amena nos ombros dela por ter acordado tarde de mais e ainda não estar vestido.

Sento a mesa, tomo meu café, pão, vinho, torradas, caviar e vinho, um típico café da manha. Vou ao sofá, sento em minha poltrona macia, abro o jornal e leio as manchetes, leio as charges, vejo os desenhos magistrais de Toulouse-Lautrec. Sorrio e lembro de minha mãe. Por um momento lembro do seu cheiro, uma fragrância peculiar de carmim com charutos, tipo de uma francesa de nosso tempo. No inverno o toque daquele peculiar cheio feminino/masculino de suor se acentuada, mas ainda era algo agradável de abraçar. Em meio a devaneios sinto Le Blanc bater em meus pés. Olho para baixo, ela me encara com olhos de pesar como se percebesse minha dor e falta. Depois encolhe a cabeça e se senta. Sinto-me reconfortado, ainda bem que Le Blanc esta aqui comigo.


Termino de ler o jornal e descido dar uma volta. Vou a janela e me sinto só em meio aquela multidão. Não quero descer a rua sozinho, tudo parece tão apressado e incomodo... me sinto um personagem fictício em um mundo que corre sem querer saber a minha história.

Volto-me para a poltrona e vejo, parada em meio a sala, Le Blanc, me encarando, me dando ânimos, se oferecendo para fazer companhia. Sorri como uma senhora que é, como quem diz “Vamos! Nos dois precisamos de sol!”. Respondo “vamos!”


Visto uma roupa mais informal: calça de linho preta, meias lisas e sapato de couro. Uma camisa de linho italiana azul clara, um colete preto lustroso, terno inglês preto também. Uma gravata de linho azul marinho e uma confortável cartola. Deixo as abotoadoras e a presilha de gravata na gaveta, só quero dar uma caminhada. Coloco o relógio no bolso, após arrumá-lo com o da igreja no fim da galeria, a qual consigo ver perfeitamente da janela de minha cozinha. Tiro a velha coleira de Le Blanc do armário. Visto-a. Ela se agita um pouco impedindo a operação, mas logo após mencionar o passeio pela famosa galeria ela se acalma, a isso aviso a ela que comprarei um Pettit-gateau na volta.


Ao abrir a porta eu e Le Blanc nos deparamos com um mundo agitado e tempestivo. O dia esta frio, então olho para Le Blanc para lhe perguntar se quer mesmo sair a campo, porem já a vejo agitando os primeiros passinhos. Sorrio com o animo de minha companheira, já faz algum tempo que não saímos juntos, talvez seja um passeio legal.


Após algum tempo eu consigo fechar a porta de minha casa, e já neste começo vejo como o povo parisiano é amigável, recebi vários bom dia e desculpas sem mal dar um passo. Comerciantes e consumidores andando de um lado para o outro, pulando por cima de Le Blanc e de meus pés. Sinto-me mais animado a continuar esse passeio.


Após um tempo sinto fome, devem ser metade do dia. O lugar esta apinhado de gente, e continuo recebendo uma onda de Bons Dias e Desculpas e Com Licença das pessoas. Todas muito educadas e muito polidas, menos um que gritou algo em um língua estranha que não compreendi o que era. Com o tempo as pessoas começam a ser obrigadas a seguir o meu passo e, assim, diminuir o ritmo do delas, sendo que eu ando no passo de minha companhia, não quero ser mal educado e arrastá-la por ai, qual seria o sentido de caminhar pela galeria se não caminhar por ela?


No fundo, começo a achar que estou fazendo um bom favor a todas elas, diminuindo o ritmo dos passos, elas podem começar a prestar atenção na vida a sua volta, na beleza das galerias e das construções.

Ao meu redor começa a tumultuar gente querendo passar, porem sigo firme no meu passo, Le Blanc não aprece concordar comigo, hora ou outra sigo um puxão na coleira, então sigo os passos dela. Acho a cidade muito agitada, muita coisa acontecendo em muito pouco tempo, a beleza e a poesia se perdem em meio a calçadas pretas e brancas e arcos de ferro das construções nas galerias. Tudo parece se resumir a vitrines e se acotovelar por um espaço.


Entro em um restaurante e peço uma Omelete com Queijo, duas saladas, um pato ao molho de laranja com alcaparras e batatas doradas e dois Pettit-gateau. Como minha entrada com a salada, e dou uma das saladas para minha amiga. Ensino-lhe uma lição valiosa sobre a digestão começar na boca. Hora ou outra tenho que alertar Le Blanc que outras pessoas comem ali, ela não precisa comer de boca aberta, mesmo sendo idosa, ela tem que ser educada, dar o exemplo. Após isso, nos dois começamos a comer nossa sobremesa.


Descansamos um pouco olhando a pressa das pessoas do lado de fora. Mesmo em silencio, concordamos que tudo isso é um caminho sem volta. Suspiramos ao mesmo tempo. No fim, o dia esta sendo bem agradável.


Em um momento da volta até minha casa um grupo de pessoas vem me cumprimentar pela critica que estou fazendo, e dizem que quer me encontrar amanha para todos passearem com tartarugas pela galeria. Marco um horário com eles, me sinto feliz, nada como companhia para andar, Le Blanc também parece feliz em saber que amanha conhecera outras tartarugas. Nada como um dia após ao outro.


No entanto, em grande parte do caminho ficamos pensando, de que critica eles estavam falando?

* Este é o titulo de um texto feito por Walter Benjamim.

Ps.: Pessoas passeando com tartarugas pelas galerias de Paris foi algo que realmente aconteceu. Só fiz uma alegoria.

Ps.: Existem varias referencias reais no texto, talvez compreende-las dêem mais humor a ele. Só por no Google que acha.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Sobre a vida - voltando lentamente

Sentado agora em frente ao computador tudo aprece efêmero. Estas tantas semanas repletas de acontecimentos e novidades que me afastaram um pouco de mim mesmo. Provas e mais provas que merecem uma larga critica e outras bons elogios, D.Rs. como ouvir o Arnaldo Jabor chamar esse tipo de coisa. E Cinema. Tenho me envolvido em bons projetos, acho que vão acontecer, estou me esforçando para isso.

Efêmero são os problemas momentâneo que passamos, como uma prova se segunda chama ou definir o que estou afim de ouvir no momento. Digamos, ainda tenho texto, ainda viram mais provas, e o curta ainda não foi filmado, mas a soma de todos esses problemas já se esvaíram em um passado efêmero, se posso dizer assim.

Afinal, não tenho HIV, ou Câncer, saca? Problemas eternos e derradeiros, fatais até.

Só provas e projetos. Nada de mais. Francamente... isso não me motiva a viver mais e melhor “Meu! Eu tenho uma vida perfeita sem doenças ou problemas não efêmeros, vou aproveitar melhor a vida”, escuto histórias sobre o contrario disso, e fazem sentido pra mim.

Me divirto quando ganho no pimbolin / totó / Futebol-de-mesa, com meus amigos de sala. Gosto de conversar horas sobre filmes e livros e mulheres e quadrinhos. Adoro contar e ouvir piadas e rir. Se existe algo que eu gosto é rir. Não estou envolvido em uma faze suicida para evitar minha vida efêmera, mas em pequenas felicidades para evitar a efemeridade da vida.

Vamos sair dessa prosa estranha e falar algo cultural, que faça alguém crescer.

Leiam, “Alta Fidelidade” de Nick Hornby. Estou lendo ele, fiquei a noite toda lendo, e vou terminar de ler ele o quanto antes. É ótimo. Um livro para homens, talvez seja um romance, mas é um romance para homens. Tipo “Closer”, o filme. As mulheres gostam do filme, mas quem entende realmente são os homens. Recomendo mulheres lerem o livro também. É ótimo para todas as idades, faz os homens avaliarem seus relacionamentos, sua vida e as musicas que escutam, e as mulheres a entenderem, em parte os homens. Por que, ali, tem coisa que só homens de verdade entendem.

Leiam, vale a pena. Sem duvida um complemento a vida, e vocês vão rir. Rir sem parar.

“Aqueles tempos se foram, boa viagem e fodam-se eles; a infelicidade realmente significava algo naquela época. Agora é só um saco, como ficar resfriado ou não ter dinheiro. Se você realmente queria me sacanear, deveria ter me conhecido antes.”

- Rob Fleming, 35 anos, personagem do “Alta Fidelidade

sexta-feira, 17 de abril de 2009

O projeto oficial do meu projeto paralelo


- Depois de alguém tempo, um projeto que se iniciou há alguns anos finalmente torna-se real (ou seria virtual?). Um site nerd.
- Sempre tive o que dizer, ainda mais nesta área da minha vida, sendo eu um Nerd assumido. Filmes, quadrinhos, Vídeo-game, RPG e outras coisas que fazem da vida um lugar legal.
- Assim, após alguns anos conversando e discutindo, eu e um amigo conseguimos por no ar este projeto, o Liga Nerd, que mudou de nome tantas vezes quanto nossas reuniões eram freqüentes.
- Não pretendo deixar o Higiene Fecal. Aqui posso colocar pensamentos mais ousados e obscuros, reflexões longe da proposta do Liga Nerd. Gosto de escrever aqui, lá escreverei noticias e informações, algumas pesquisas e apontamentos. Mais direcionado ao mundo Nerd e seus hobbys.
- Mas faço aqui a ponte entre o Higiene Fecal e o Liga Nerd. Aproveitando para fazer uma propaganda: Escreverei uma espécie de Livro no Liga Nerd, o primeiro Capitulo já esta lá. Tenho consciência que ele não deve estar o melhor de todos, mas pelos que leram até agora recebi boas criticas, e espero desenvolver a história até o fim. Afinal, um livro é bem diferente de um conto.
- No mais, APROVEITEM!

WWW.LIGANERD.COM.BR

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Futuro do pretérito*

- Semanas de prova. A vida começa a entrar em parafuso. Parafuso é um termo técnico para loucura diária, stressante e louca em um liquidificador. É um espaço tempo paralelo para o humor e os planos, nada mais parece ser possível. O pós semana de provas simplesmente nunca virá, como se nossa vida encurtasse ao ponto de que, o futuro se torna imperceptível, somente aquele dia final da prova, aquele dia da ultima prova, que você teve que ler 100 paginas para fazê-la, perdendo horas de sono e produtividade no trabalho. O mundo começa a girar em um sopro de insanidade e perturbações.
- Tive um sonho que me levava para o futuro, e ele era um papel em branco para colocar meu nome.
- Lembro quando estava no colégio, fazia 10 provas: matemática, português, inglês, química, biologia, física, história, geografia, educação física, artes, e eram tranqüilas, podia fazer uma por dia, duas as vezes, quem sabe 3? E lá íamos nós, líamos 2 capítulos, e respondíamos com x varias opções, as vezes, em situações mais complicadas, escrevíamos, mas lembro que não sentia que o mundo ia acabar, parecia simplesmente que no fim, eu ia passar de ano. Ou seja, eu ainda tinha alguma perspectiva de futuro. Agora, tenho 4 ou 5 provas, centenas de textos para ler, e a certeza que depois, nada mais virá.
- Sonhei que eu lia um livro, e as paginas não tinham nada mais que uma assinatura em vermelho e um numero escrito de forma incompreensível no canto superior direito.
- Ontem mesmo eu fui fazer uma prova, não havia conseguido ler todos os textos, vi a professora entregando as folhas de provas para os colegas do outro lado da sala, veio na minha cabeça um mundo preto e branco, forcas e guilhotinas por todos os lados, e a possibilidade de pagar 25 reais e refazer a prova. Visualizei minha carteira sem dinheiro e meu corpo inerte em duvida em ir em direção a uma forca ou uma guilhotina, e um forjo com estacas, que eram na verdade canetas, se abrindo sobre meus pés, e eu na duvida se caia nele ou simplesmente saia dali e dava um jeito nisso tudo. Para meu susto, minha amiga a minha frente, também estava nervosa com a prova, por um lapso de momento, naquele cenário caótico de tortura e dor, com cordas e laminas, eu vi um vulto que poderia ser ela, ou um outro eu também em duvida. Vai saber? E juntos saímos da sala.
- Não sei se fiz certo ou errado, já esta feito, agora terei que achar grana para refazer a prova, uma grana que deveria ser usada para engrossar as fileiras de filmes e livros na minha estante, e agora, se perderá em um tufão que acabou culminando em minha saída daquela sala.
- Acordei de um estranho sonho quando eu saia da minha carteira, pisava em um tapete branco, que aprecia ser feito de papel, e via atrás das montanhas um sol se elevando sobre um dia nublado. Parecia que, em meio as lisas nuvens brancas tinha algum rabisco feito em caneta vermelha. Abri meus olhos e percebi algo importante. Preciso, urgentemente, ir para uma montanha.

*Eu sei que existe uma história do Batman com esse nome. Eu adorei a idéia da frase.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Lapso

Meu ouvido perspicaz, curioso e xereta, me trouxe uma estranha conversa. Na verdade, ele pescou um fragmento que, creio eu, a autora das palavras provavelmente se ofenderia com esse texto. Mas acho que é um bom exemplo de como o cotidiano pode nos dar boas idéias.

Estava eu saindo do ônibus, e três mulheres passam por mim na direção oposta, capto este fragmento de conversa que alongo para nosso deleite.

- Menina, vi ontem uma frera... nossa, como é o nome mesmo? Tem um nome certinho.
- Freira? Madre?
- Não!
- Carola, irmã...
- Que? Não to falando de frera de igreja... é parecida mas é outra...
- Missionária, guerreira... Celibatária, virgem, muçulmana...
- Do que você ta falando? Do falando de FRERA, daquelas de mercadinho sabe?
- De mercadinho? É alguma padroeira é?
- Não! Bah, você ta me deixando confusa. Uma frera, passei na frente dela na rua...
- Na rua? Uma freira? Só pode ser missionária... não consigo pensar em outra... ou você ta falando que viu a Madre Teresa!!!
- Madre Teresa? Do que você ta falando?
- Do que você ta falando!
- De frera ué. Ai, ta na ponta da língua, daqueles que vende coisa de mercado...
- Que vende coisa de mercado? Cruz? Daquelas que faz voto de pobreza? Disimista.
- Que voto de pobreza? Frera faz voto de pobreza agora?
- Acho que faz sim.
- Se faz, não é dessas que eu to falando.
- Não sei, uma freira que não faz voto de pobreza... Judia?
- Judia? De quem?
- De nada. Judia, a mulher do judeu.
- É piada é?
- To tentando te ajudar a lembrar da freira.
- Pois só ta atrapalhando com esse papo de igreja!
- Se não é de igreja do que é?
- Ai, deixa eu lembra, é bem facinho o nome, ta na ponta da língua...
- ...
-Frios!
- Que?
- É! Uma frera de frios, passei na frente hoje mesmo. Tudo coisa boa. Agente podia passar lá depois e...

terça-feira, 7 de abril de 2009

Segunda feira... show do Motörhead no domingo, e la vou eu correndo pegar aquela grana do ingresso no caixa eletronico, quando de repente... sim.. a sensação é a mesma... desamparado e em local estranho. Volto pra casa pensando se estou em tempo de vender algum orgão. Dica do dia: droga de vida.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Um acontecimento Significativo

As forças da natureza se reúnem na intenção de mudar as coisas. Em meio a uma discutição acalorada sobre a vida e a morte, as peripécias e nuançais das próprias escolhas dos seres humanos e tudo mais, houve a necessidade de se chegar a uma conclusão. O debate se resume a duas opiniões: Uma grande catástrofe natural e a criação de algo novo. A quirela se esquenta. Os dois lados simplesmente não se entendem. A administração da época, querendo evitar o conflito maior, pede algo mais sutil. Criar algo novo sempre cria polemicas futuras, afinal, em vez de mudar, às vezes, o fato de algo novo ter surgido torna-se mais interessante do que o próprio algo em si. Por outro lado, uma grande catástrofe faz muita bagunça, muitas vezes são esquecidas com o tempo, e se não forem, a bagunça é bem maior.
Desta forma, um ardiloso e sorrateiro, ou talvez, sábio e sagaz, integrante da reunião sugere a possibilidade de um plano que pode ser algo simples e talvez eficaz, poderia se passar desapercebido e/ou mudar tudo de maneira drástica. Das duas formas, não custava nada tentar. A reunião ficou curiosa com a proposta, todos ali gostavam de sutilezas.
Quando o pequeno se adianta a frente de todos, e fala “Vamos quebrar um pente!”, alguns levam a mãos a boca, outros aplaudem entusiasticamente, certos sujeitos simplesmente ficam em pé, alguns soltam um pequeno sorriso no canto dos lábios, outros proclamam ser absurdo, mas a maioria pergunta para os colegas mais próximos “o que foi que ele disse?”. Por fim, após algumas especulações maiores, o pequeno esmiúça seus planos a todos: seria um único pente, quebrado de maneira incerta na Bulgária. Todos na reunião gostam da palavra incerta, mas nem todos da Bulgária, então trocaram por Suíça. A seqüência de fatos seriam deveras especulativas e tediosas, desta forma, ninguém prestou muita atenção, e somado ao bom discurso, com as palavras certas e o cansaço de todos, a proposta foi aprovada. E assim, tudo se inicia.

Suíça. “Todo mundo na casa falava o que pensava, e entendia o que todo mundo pensava. Não por um estudo cuidadoso e sim por efusões espontâneas da alma. Era uma pequena utopia, um estado de pura transparência.”* Ali, um garoto havia sido adotado a alguns anos. Sua vida se regeu pelas regras da casa, e viveu feliz até o fatídico dia. Sempre amou sua família, e respeitava esta liberdade que tinha. Em volta dele, havia algo que o mundo lá fora negava, algo que ele acreditava como sendo a verdade e a sinceridade. Importantes fundamentos para uma vida. Um dia, quando todos saíram de casa, e ficou somente o garoto, Jean, algo aconteceu. O garoto não percebeu, ninguém percebeu. Não havia o que ter percebido, mas aconteceu. E assim, quando todos voltam, a conseqüência dos atos do que aconteceu se revelam traumáticas e transformadoras. Um pente foi quebrado na estante.
Ao verem o pente quebrado, todos perguntam quem foi que quebrou o pente, e todos ali tinham um álibi, até mesmo Jean, porem, ele era o único em casa. E se alguém poderia ter quebrado o pente, só poderia ter sido ele. As conversas começam, ninguém liga para um pente quebrado, mas para as regras, onde todos poderiam ser sincero e falar a verdade sem medo. E, se o jovem Jean não iria falar que quebrou o pente, seria um desvio da regras. No entanto, ele esta tão convencido de sua verdade, de que não havia sido ele que. Ele não iria mentir para as pessoas que amam pois, falar que havia sido ele, seria violar as regras em que acreditava e nas quais fora educado. Assim surge um conflito da impossibilidade de se firmar uma lógica. Para a família não havia como não ter sido ele, e para ele, não havia como ter sido ele. Com o conflito, houve a punição, e o jovem Jean apanha de seus pais, vendo as lagrimas de sua mãe a fazê-lo, seus irmão ficarem horrorizados com o ato, tão raro sobre aquele teto. Talvez ele ainda lembra-se das palavras de sua mãe “Não queria fazer isso Jacques, não queria.” Ele acreditava nela, ela só o chamava de Jacques quando queria pedir algo, ou desculpas ou algum favor, era uma forma carinhosa de ser tratado.
E, ali, há uma mudança na ordem as coisas.
O garoto descobre que existem duas verdades, a que ele diz, e a que ele é. E não importa como a sociedade seja, sempre haverá diferenças. Não existe transparência completa, sempre haverá obstáculos. Para o mundo surgiu uma nova forma de pensar o homem e a sociedade. Para a família Rosseau, uma solução paliativa para um problema sem muita importância.

Este texto foi inspirado em um acontecimento real, na vida de um autor real. Porem é uma ficção. Obviamente.

*Trecho retirado da obra “História e Literatura” de Robert Darnton

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Entre a Fonte e a Realidade

Meus diários cheios de paginas marcadas e arrancadas só me mostram uma coisa. Meu passado é uma mentira. Vejo riscos e rabiscos de correções e anotações nos cantos da pagina que, para mim, só podem ter sido escritas anos após aqueles acontecimentos.
Vejo como minto para mim mesmo. Meu passado nada significa, minhas anotações nada importam, anos e anos sem lembrar se realmente fiz, ou me fiz fazer, para lembrar com nostalgia de um passado estranhamento distante de mais.
Não sei se realmente gostei daquela musica, ou se dancei aquela valsa, ou me fiz dançar. Se os lábios daquela menina realmente são macios e úmidos como lembro, ou simplesmente mostro meu desejo intimo de algo que quis que fosse.
E como mudei minha vida graças a essas mudanças. Fui confiante, foi forte, fui sábio, pois na juventude o era, e agora, agora vejo com sabedoria que as paginas arrancadas e as marcas de corretivo simplesmente são minha ineficácia em viver minha juventude, e não sei mais como foi esta juventude, se foi minha, ou dos filmes que vi e livros que li.
As historias são contadas e recontadas, e muitos confirmam coisas que eu mesmo disse a eles anos atrás. Principia Discórdia o nome disso. Porem, não sei se sou eu, ou meus boatos. O mundo vira as costas quando olho firmemente para meu passado, e me pego lendo paginas e mais paginas mal escritas em um diário juvenil sem semântica ou concordância. Simplesmente palavras falando o que eu queria ouvir, ou queria ter feito. Sinto-me mal. Fraco. Pois não pareço eu. Um homem velho e cansado, sentado sobre meus chinelos puídos pelo tempo. Não há mulheres ao meu lado, não há filhos nem conquistas. Porem, ao folhar os diários vejo que há muitos anos era o que eu queria para mim. Isso esta anotado em um canto do diário, justamente no ano em que estou no meio de minha graduação, e parece tão lógico, tão certo, tão confortável que me pego sorrido por realizar um plano. Mas... será que eu jovem era assim? Conformista com meu próprio futuro? Desinteressado e desapegado? Sinto minha alegria ir embora por desperdiçar minha tenra idade com pensamento idiotas que agradariam a um eu velho. Mas mais para trás, aos meus 15 anos, vejo um outro jovem, que me anima, falando que quero realmente descansar quando velho, mas viver intensamente minha juventude. Isso esta por cima de rasura sem fim sob a pagina, após outra tantas rasgadas. Mesmo assim, vejo anotações e anotações sobre feitos, mulheres e conquistas, medalhas esportivas, prêmios e congratulações. E vejo que aquele jovem de 15 anos compactua com aquele de 20. E um eu de 30 sorri ao pensar que logo-logo poderei ler as coisas que quero. Sem aquela noiva cansativa.
Não me lembro de ter noivado. Meu irmão fala que foi na época em que estive na Argentina, três anos, o diário concorda com ele. Eu não me lembro da Argentina. Há uma passagem em que estou sentando em meu quarto admirando uma tabacaria. Sinto falta de meu cachimbo. E eu que não sabia que fumava.
Valeu à pena? Não sei. Não sinto cruzando o Bojador, como relata o eu de 40 anos, ao percorrer o caminho de Santiago. Ou meu delírio louco ao me formar na academia. Ou a vitoria sobre o Major no torneio de xadrez. Ou pior, quando impedi a morte de centenas em um trem, lutando bravamente contra um homem com dentes de aço.
De minha vida lembro-me dos filmes e livros, e estar sempre sozinho. Lembro da corrida triunfal dos jovens no Louvre, e o a alegria deles, acho que nunca sorri assim. Lembro de sempre ter Paris. Da dança louca e revigorante em Creta. De questões elementares que só conseguia entender no final. Das loucuras de Justine, e elas se confundem com as minhas. Vejo meu diário e vejo coisas loucas e maravilhosas que fiz com mulheres e mais mulheres. Anotações e detalhes. Sade me processaria talvez. Não lembro. Não me lembro de minha cama sendo ocupada com tanta luxuria e tensão. Não me lembro de sorrir como sorrio sentado na margem do Tejo. Não vejo em mim, o que sou. E o que trás minha própria vida e minhas lembranças escritas. Não sei. Não sinto. Não lembro.
No sim talvez, somente as frases do eu garoto, aos 12 anos, ao começar os diários, faça sentido e tracem uma realidade sobre mim.
“Não: não quero nada.Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!A única conclusão é morrer.”

quinta-feira, 26 de março de 2009

Outro tempo, outras relações

Cá estamos, 1873, interior do estado do Paraná. A alguns minutos atrás a mãe entrou no quarto e avisou suas filhas que um viajante estrangeiro ia visitar sua casa, e que elas iriam para a sala cumprimentá-lo. Algo raro, sempre que alguém visita a casa, elas ficam no quarto, trancadas. O ultimo homem que elas viram foi seu pai, e ele estava saindo da mesa do café da manha para que elas se sentassem para o desjejum. Quando eram mais meninas elas iam brincavam com os filhos e filhas das fazendas da redondeza. Mas agora, não os vêem mais. Na missa elas entram de cabeça baixa e saem de cabeça baixa, não vêem ninguém, tem vergonha de ver alguém, ver um homem, ainda mais na casa de deus. E hoje, elas iriam sair do quarto em uma visita e ver alguém. Claro que a imaginação vai longe.

Ao todo elas são em 5, a mais velha tem 16 anos, seu pai falou que já esta na hora de casar, arranjar um bom marido e seguir a vida. Ela também quer isso, mas tem medo. As outras já foram avisadas que a vez delas também ira chegar. Todas pensam nisso dia após dia. Realmente não há mais nada a se pensar. Não que elas reclamem, mas não existe muita opção.

Elas estão todas sentadas, as duas mais novas estão sentadas no chão, abraçadas com o próprio joelho, para elas, homem significa dor. Uma vez, uma tia havia vindo visitá-las, era uma benzedeira. Quando sua mãe não estava perto, ela contou como as coisas aconteciam, todas ouviram horrorizadas a discrição, que teve que ser interrompida na metade com a chegada de seus pais. Após isso, tudo era especulação.

- Entra aqui. – disse a menina segunda mais velha, Maria da Graça – acho que fica assim até uma luz divina aparecer, e ai o bebe entra, junto com a luz.

- E a dor? – pergunta a segunda mais nova, Cleonice. – A tia tinha dito que tinha dor.

- Sem dor – continua Maria da Graça – Deus quer que façamos isso. O padre falou na missa aquela vez.

- Tem dor sim! – Disse a terceira. Socorro era seu nome. – lembra quando agente colocou aquilo aqui? Doeu um pouco e nem entro direto.

- Mas não teve a iluminação divina! – Diz Graça – Quando é em beneficio divino, não ter dor.

- Eu senti dor... – murmura Socorro.

- Eu não quero isso. Vou falar pra mamãe que serei freira, me casarei com Deus, e não terei dor alguma. – A caçula, Maria Aparecida, quase grita, e esconde o rosto nos joelho começando a chorar. - ELE não vai me deixar sentir dor.

Maria da Graça desce da cama para consolar a irmã. Cleonice também a abraça, e chora junto dela.

- Mas não haverá dor. – Fala Graça, afagando o cabelo da irmãzinha. – Será por Deus. Se você aceitar a devassidão, ou não for batizada, sentirá dor, caso contrario, Deus te iluminará. - Você não tem certeza. – Aparecida murmura secando as lagrimas.

- Vocês não tem curiosidade de ser mulher? – insiste no argumento Maria da Graça.

Todas ficam caladas. Olhando pro chão. Após um tempo elas escutam o som da frente abrindo, seu pai cumprimenta o visitante e começam a conversar.

- Uma vez. – Linda, a irmã mais velha rompe o silencio. Todas olham pra ela quase assustadas, é raro ela falar com as irmãs, na verdade é raro ela falar. – Papai me levou com ele pra fazenda. Eu queria andar a cavalo, e ele me levou. Era tardezinha, e quando chegamos ao rio, que tem lá perto da fazenda do Tonho. Ele parou pra descansar. Falei pra ele que queria entrar no rio, pra me refrescar, ele falou que não. Eu chorei pedindo, e ele deixou. Tirei minha roupa e entrei na água, pouco depois, papai entrou na água também. Eu fiquei feliz dele ter entrado comigo. Mas depois tudo ficou entranho, eu tinha jogado água nele e ele em mim, estávamos rindo. Depois ele me abraçou. Me senti confortável. Depois... – Os olhos de Linda mareiam com lagrimas. – Depois eu senti uma coisa estranha nas minhas pernas, e ele me forçou, e senti uma coisa, senti dor, muita dor, eu queria gritar, mas ele forçou minha boca contra o peito dele. Falou que estava tudo bem, que ele fazia isso com a mamãe às vezes. Depois de um tempo a dor foi embora e... eu senti um arrepio nas costas. Nunca tinha sentido aquilo. Foi diferente, tudo parecia diferente. Papai saiu do rio, pediu desculpas pra mim, eu não sei por que, depois se vestiu e subiu no cavalo. Gritou pra eu ir com ele. Eu tinha ficado na água. Eu me senti estranha, parecia que estava sentido calafrios, a dor tinha voltado um pouco, mas acho que era por causa da água gelada... Eu vi uma coisa que eu nunca tinha visto antes, como aquela coisa que os cavalos tem entre as patas de trás sabe? Só que menor, e no papai.

Todos estão ouvindo atentamente, o silencio é cortado pelo murmúrio de lamento de Aparecida. Maria da Graça também tem seus olhos cheios de lagrimas, Cleonice parece maravilhada com a história. Socorro tem lagrimas escorrendo pelas bochechas, mas não emite som algum.

- Foi ruim? – Socorro pergunta meio que soluçando.

- Não... não sei... queria que acontecesse de novo... mas papai nunca mais me olhou de novo, nem falou mais comigo. Acho que fiz alguma cosia errada, desde aquele dia me sinto diferente. Eu senti dor, mas senti algo... talvez seja essa iluminação que a Graça falou.

Todas se mechem em seus lugares. Milhares de pensamentos passam pelas suas cabeças. De todas as conversas que sempre cochichavam sobre isso, essa tinha sido a mais esclarecedora. Por algum motivo, todas queriam saber como eram.

- Será que o papai vai levar todas nós para o rio? Pra ensinar essas coisas pra gente também? – pergunta Cleonice com a sombra de um sorriso nos lábios.

- Será que isso é certo? – Indaga Socorro.

- Não sei... Mas acho estranho. Será que eu serei a próxima? – Maria da Graça abraça um travesseiro, ficando em silencio.

- Eu ainda tenho medo, mas parece que minha curiosidade percorre meu corpo todo – Fala Aparecida.

Todas ficam em silencio. Assim, quando ouvem a fechadura soar, e o trinco descer, todas se levantam vão esperar para sair, elas vão ver o pai dela de outra maneira, e um outro homem. E elas estão cheias de duvidas na cabeça.

Quando a mãe pede para elas iram até a sala, elas vêem o pai, e o outro homem, e vêem cavalos, rio e outras coisas estranhas e confusas, e riem, riem sem parar.

ps.: Sou um historiador. Sei que incesto e pedofilia é errado, e não compactuo com isso. sei quão horrendo é este texto. Porem, ele não foi escrito pensando no hoje, mas em outro tempo. Uma sociedade que, para os padrões nossas e também para os da época, era considerada ignorante. Isso não é um conto erótico.

terça-feira, 24 de março de 2009

Baseado em fatos reais

Engraçado. Estou sentado em uma cadeira, ao lado de um amigo, nos dois quietos, esperando. A delegacia esta cheia de policiais sorrindo, civis com caras fechadas. Vejo também dois policiais de rua com cara de tédio, prancheta na mão, creio que eles também esperam.

- Sabe? – começo puxando assunto com meu amigo. – Isso tudo é uma sopa. - Como assim? – responde ele, esboçado um sorriso. Entendo ele, não consigo sorri muito também. - Não uma sopa normal. Aquelas grossas e viscosas, sem legumes nem nada. Só caldo grosso. - Sei, mas o que quer dizer com isso? - Tudo isso, não só esta delegacia, mas a situação do todo. Ela não escorre, mas se sustenta como ela é. Tecnicamente ele não é viscosa, nem mesmo grudenta. Simplesmente uma grande unidade de mesma forma, moída e misturada em um liquidificador. Onde, se for tentar definir realmente o que é o que, você acaba defindo tudo como sendo uma única coisa. Uma sopa. Não se pode definir um problema, nem mesmo apontar uma direção, pois tudo é assim. Não importa a luz nem a perspectiva que você olha, tudo é simplesmente uma sopa.
Ele sorri de novo, fala baixo um “entendo” e sorri novamente. Ficamos quietos novamente.
- As vezes, - continuo – não parece fazer sentido nada. Se formos analisar tudo que aconteceu até agora, acharíamos tantas hipóteses absurdas, que ou nos tornaria paranóicos, ou loucos. Talvez, a ignorância nem seja uma escolha. - Continue... - Assistiu aquele filme: “O misterioso caso de Benjamim Button”? - Claro, muito bom! - Lembra aquela momento em que ele começa a descrever a passagem de uma seqüência de acontecimentos que fulminam no atropelamento da mulher? Dizendo que, se alguma dessas coisas tivesse acontecido de maneira diferente, tudo teria sido diferente? - Nossa, lembro sim, tem um termo japonês pra isso. Não é destino, mas simplesmente uma seqüência de fatos que causam outros fatos. Dizem que, o bater das asas de uma borboleta em Londres pode causar um conflito no Japão. Não lembro o termo. - Tipo teoria do caso. - Também. - Se formos lembrar de tudo. Decupar os fatos até agora, podíamos ver que, em algum momento podíamos ter evitado. Porem, não faz sentido pensar em evitar. Olhar pro passado é algo até que simples. Mas olhar pro futuro parece tão improvável... - Dizem que podemos tentar antever esses fatos. - Acho que poderíamos, com certa experiência de vida e tudo mais. Mas... será que não viveríamos em paranóia? Com medo de fazer as coisas. Creio que, por natureza humana, pessimista como ela é, sempre olharíamos o lado catastrófico das coisas. - Talvez.
O Silencio impera novamente. Em meio a isso tudo, policiais fardados sorriem e passam de um lado para o outro. Vejo, sem nem precisar ir até a porta, algumas viaturas estacionadas, e perto delas, alguns outros policias fumando e também sorrindo. Não entendo onde eles, que possuem uma profissão tão estressante conseguem sorrir, é quase meia noite, e lá estão eles, falando em celulares com musiquinhas chatas ou ridículas, e sorrindo. Há meia hora atrás falaram que não tinham nenhuma viatura pra mandar pro local.
Após um tempo, um casal estranho, um homem de certa idade senta a nossa frente com uma mulher realmente gorda com uma roupa que ficaria apertada em alguém realmente mais magra que ela. Os dois com faces serias e fechadas, ele cansado e ele irritada, como se ensaiasse algum discurso ou estivesse inconformada com alguma situação. Ficam ali um tempo, sem se olhar, sem conversar.
Um homem vem ao balcão e grita pedindo pelo dono da casa que tentaram invadir. La de fora entra um senhor, com roupas jovens de mais para ele, com passos ligeiros e prestativos. Seus olhos também estão cansados. Ele entra junto com o outro homem, e o silencio é interrompido por murmúrios e passos.
Após um tempo, uma garota magra de mais, eu diria que seria a dona das roupas da senhora gorda. Entra com um gorro, com uma cara de quem chorou de raiva, atrás de um senhor que parece que teve o rosto esculpido na madeira. Ele parece ter um sorriso, mas também parece cansado, seu olhos estão envoltos raiva. Poucos minutos depois, um garoto, talvez tão novo quanto a menina do gorro, entra pela porta, seu nariz esta visivelmente quebrado, ele esta de meias amarelas (sem tênis), calça jeans, uma camiseta azul clara suja de sangue, seus olhos estão inchados, como se tivesse apanhado e chorado muito ao mesmo tempo. Ele manca de uma perna, suas mãos nas costas presas em uma algema e mordendo seu braço com os dedos está um policial, rindo muito, seu sorriso esconde seus olhos, e todos o cumprimentam. A menina se levanta, quando ele passa, o senhor do rosto de madeira, também levanta os olhos do chão para olhá-lo. Todos parecem praguejar. Ele some pela porta também.
- Quantos anos você acha que ele tem? – Pergunta-me meu amigo. - Nem mais que dezoito. – respondo - Acho que nem dezesseis. – Ele complementa.
Ficamos ali. Sem motivo algum, a mulher de roupas apertadas grita: “to olhando prá você? Então para de olhar pra mim”. Acho que ela estava falando com a menina do gorro. Tento ironizar na minha cabeça sobre alguma briga de meninas sobre quem usou a roupa de quem, mas a piada se perde. Entendo o que as pessoas dizem sobre algo ser engraçado em determinados lugares e não ser em outros.
De repente, um homem com uma camisa rosa com botões metálicos parra no balcão e pergunta: “quem é o próximo pra fazer um B.O.?” vejo todos se agitarem ali. Levanto a mão como um aluno que é chamado pra fazer um exercício chato no quadro. Meu amigo se adianta e fala “Nós”. Levanto-me atrás dele.
A conversa se entedia entre o que aconteceu e por que estamos ali. Respondemos sobre o assalto, roubaram o som do meu carro e quebraram o vidro do carro para isso. O cara pede para entrarmos.
Na sala, temos aqui mais policias, alguns sorrindo menos, outros sorrindo muito, alguns cansados, outros andando de um lado para outro. Uma bancada com civis em volto, o homem que teve a casa invadida esta entre les. Outros civis, ou homens sem fardas, também estão em volta do balcão, um deles muito serio pedindo calma e ouvindo todos. Estão falando baixo de mais pra ouvir, e o som da sala não permite que eu consiga ouvir exatamente o que falam. Porem passamos rápido por essa sala, e entramos em uma saleta, onde tem uma mesa, com um computador em cima, uma impressora, e ao fundo um arquivario de gaveta tripla. E uma placa metálica brilhante escrito em letras garrafais “Proibido o uso de celular no recinto” ou algo como “Desligue o Celular”, não lembro bem agora.
O homem de camisa rosa se senta em frente ao monitor, e nos do outro lado da mesa em duas cadeiras. Iguais as que estávamos sentados lá fora.
Ele pergunta o que ouve. Meu amigo fala mais que eu, estou me sentindo cansado com tudo isso. Sem animo pra falar, ou reclamar, ou o que quer que seja.
Explicamos que era festa de aniversario de meu amigo, que estávamos nos divertindo, e dando risada, havíamos jogado futebol até umas dez horas, e tínhamos senado para jogar Can-Can. Não tínhamos bebido, nem nada, acho que eu nem jantei direito, acho que eu tinha olhado pra carne na churrasqueira pensando em pedir pra fazer ou pegar umas pra mim, não falei isso pro guarda. Lembro que entrei em devaneio lembrando dos acontecimentos.
Eu tinha recém chego de ter levado a tropa escoteira para o Anhangava, um morro que tem aqui perto da cidade. Passei o dia todo pra subir e descer o morro, foi muito bom, a vista estava maravilhosa. Estou meio queimado do sol, mas valeu a pena. Cheguei em casa, falei que ia tomar banho para ir no aniversario, Já estava meio que atrasado. Eu e outros amigos meus que haviam indo para o morro comigo combinamos de nos dar carona, meu pai não havia me deixado pegar o carro, então pedi para um outro amigo me buscar, porem, após o banho, meu pai diz que não vai mais usar o carro, e me deixa ir para o aniversario dirigindo, fico feliz. Íamos em 7 ou 8 no Twingo do meu amigo, acho que não caberia, com o carro do pai podíamos dividir as caronas.
Quando minha carona chegou, avisei a ele que íamos nos separar para buscar nossos amigos. Marcamos de nos encontrar já na festa. Passei pegar minha namorada, depois fui pegar um amigo que me pediu pra ir buscar a namorada dele também. Fomos lá, e logo a pós fomos para a festa. Ao chegar, não havia vaga na frente do prédio, porem, deixei na esquina mais próxima, atrás de outro carro.
Fomos rindo e conversado pra festa, era só atravessar a rua. Lembro de ter visto o carro de um amigo estacionado e que, se eu forçasse um pouco, dava pra por o carro na frente do dele. Mas deixei quieto, preferi não incomodar ninguém. Fomos à festa, todos já estavam lá, faltava só um que ia vim de moto com a namorada.
Ai a festa começou, demos muita risada, comemos docinhos e jogamos truco. O aniversariante não é de beber, então não teve bebida alcoólica no aniversario dele. Jogamos bola em um campinho minúsculo. Foi bem divertido, rimos muito. Minha namorada quis jogar também, então ele pediu minhas roupas, falei que daria pra ela, mas antes de trocarmos de roupa, meu amigo chegou com a namorada dele, e após um tempo, elas trocaram de roupa, minha namorada pegou meu tênis, e foi jogar com os meninos. Fiquei descansando um pouco no salão de festa, estava bem cansado do dia longo, fiquei conversando um pouco, e decidi ir ver o jogo. Mesmo descalço entrei em campo, e joguei o restinho do tempo que tínhamos pra jogar.
Foi divertido, não consegui fazer muito, pois estava descalço, mas deu pra dar risada. Como sempre. Dez horas paramos, leis do prédio. Sentamos para jogar can-can, ou uno. Jogamos umas três partidas, talvez quatro e o interfone toca, o aniversariante atende, e escuto a única coisa que eu não imaginava escutar. Acho que ninguém espera. Eu nem moro ali, quando se toca o interfone você nunca pensa que é pra você. Pela cara preocupada de meu amigo, imaginei que tínhamos feito barulho de mais, de novo, e ele ia receber uma multa, de novo. Mas então ele fala “Alguém ta com um palio vermelho na rua?”, respondo que eu, “Cara, acabaram de falar que estouraram seu vidro.”
E agora, estou eu e ele aqui. Sentados em uma delegacia relatando o trivial de nossas vidas. Que meu carro tinha sido roupado, quebraram o painel, e levaram o som, e meus CDs. Meus nada, do meu pai. Os primeiros CDs do Chico Buarque, e outros clássicos da MPB, alguns de musica clássica, mas isso não importa também.
Nada importa. Nem o assalto importa, nem o vidro quebrado importa, nem os CDs, nem o fim da festa do meu amigos, nada.
A grande sopa engloba tudo. Fazendo tudo ser a mesma coisa. Sem importância, sem vida. Sem cor, sem sentido.
A felicidade as risadas não estão mais aqui, não pertencem mais a mim. A festa, divertida e memorável se foi com todos correndo para a frente do prédio. As meninas ficando para trás. Os garotos correndo. E a noite ficou mais escura. E as cores se foram, e a luz se foi. E eu vi meu carro parado do outro lado da rua. E pessoas em volta. Atravessei a rua, e todos vieram junto. E o vidro estava no chão, o painel quebrado. De repente todos começam a agir diferente. Meus amigos ouvem boatos que o ladrão foi por ali, e eles vão atrás. Dizem que encontraram, mas ele podia estar armado. Eu não consigo pensar em mais nada, a não ser que meu pai usa o carro todos os dias pra trabalhar, como ele ia usar um carro assim? Havia vidro em todo o banco de traz. Os CDs tinham sumido. Eu estava ali, descalço na noite. Olhando meus amigos arrumarem o painel. Ficamos ali, alguns me consolando, outros reclamando da vida, outros tentando pensar em alguma solução. A irmã do aniversariante vem e solta um sermão sob nós, falando que estamos agindo como idiotas, algo assim, fala que o mundo é ruim, e que estamos agindo como idiotas. Não me lembro bem. Lembro que o namorado dele falou que ele dava dando o sermão nas pessoas erradas. Acho que fez sentido, eu tinha ao meu lado uma ilustração bem formada sobre como o mundo estava ruim.
Eu vi minha namorada conversando com outras meninas do outro lado da rua. E vi que, como uma coisa simples e idiota como essa podia estragar a noite de tanta gente. Ali estava, um carro com o vidro de trás quebrado, vários garotos (temos mais de 20, mas somos garotos) e a noite tinha indo embora. Na hora nem lembrava que tinha visto um lindo dia do topo do morro, nem que tinha defendido algumas belas bolas no gol. Nem de como era divertido jogar Can-Can. Eu só conseguia ver, de maneira inerte e sem cor, as pessoas se movendo e falando. Horas depois minha namorada me falou que queria poder fazer alguma coisa. Eu também gostaria de poder fazer, acho que todos ali gostariam... mas já tínhamos entrado na sopa...
Uma passagem engraçada foram dois moradores da rua, muito estranhos, que vieram falar do roubo, vieram cheio de razão, falando que sabiam quem era, que previram tudo, que viram, ligaram para a policia 5 vezes. Repetiram a mesma história umas 10 vezes. Falaram que a rua era perigosa umas 20 vezes. E sumiram dali umas 100 vezes mais rápido que chegaram quando souberam que o policial, primo da namorada do amigo que eu havia buscado, estava chegando. Eu, particularmente, não vi eles saírem. Sei que, até mesmo o primo, tenente da policia, com sua caminhonete grande, não tinha o que fazer. Penso em como foi inútil a vinda dele, talvez tenha valido a pena pra rever a prima. Mas, bem... tudo ali, era sopa.
Em algum momento, na hora que estávamos fazendo o B.O. meu amigo fez uma conta sobre quantos crimes aconteciam por mês, que aquele distrito que estávamos recebia. Tava em torno de quatro mil e quinhentos. Tudo sopa. Quando meu amigo ia crescendo sua teoria de como estava violento o mundo, o celular do policial tocou. E claro, ele atendeu. Não sei, mas naquela hora, aquela plaquinha atrás dele brilhou mais alto. Sei que policial não é exemplo pra ninguém. Mas acho que aquela placa também deixou de ser um exemplo pra mim. Sopa.
Não pude deixar de prestar ouvidos na conversa dele. Lembro que ele falou “se me perguntarem uma história triste eu falo uma história triste, todo mundo tem uma”. Uma boa frase praquela noite.
Depois, ele reclamou de tudo, falou que a policia é uma merda, que o mundo esta sujo, que a violência esta passando do limite, que a policia do Paraná esta uma merda, mas ainda é melhor que as outras. Não tem policia nem viatura o suficiente. E que, é responsabilidade de mudar isso é do povo, que cabe a eles irem as ruas, de protestarem. De pedirem melhorias, de votarem direito. Claro, como se ele não fosse povo, e como se a policia não fosse a força de opressão contra esse tipo de reclamação. Eu estava lá quando invadimos a UFPR pedindo a saída do reitor e o fim do Reuni. E eu vi de que lado a policia estava.
O B.O. foi impresso. E fim da história. O vidro esta quebrado e o som por ai, alguém deve ter cheirado ele. Não creio que alguém quebre vidros de carro, e roube sons por ai, de maneira tão eximia, como se fosse um oficio, faça isso para comer.
Ainda estou abalado com tudo isso, mas me senti no meio do espetáculo da tragédia. De como as coisas são, acho que me senti curioso, mais que triste. Agora me sinto triste mais que curioso, nem falei com meus pais ainda. Meu irmão falou. Quando cheguei da policia eles já estavam na cama, e quando acordei eles já haviam saído, e quando cheguei da faculdade, eles já estavam na cama. Normal. Sopa. Mas uma hora acho que vamos conversar sobre isso. No mínimo agora já tenho algumas palavras. Acho que não vou explanar sobre a idéia da sopa... mas fica aqui se tiverem duvidas.
Pensamento do dia:
“As vezes simplesmente não sentimos o gosto, ou não definimos o que é. Não estimula o paladar, nem mata a fome direito. Mas da pra entender que tem alguma coisa acontecendo, e você não pode fazer nada pra impedir isso. Nesta hora, você sabe que esta envolto em uma Sopa.” (Finalmente entendo o ódio da Mafalda)
Fernando Scaff Moura

segunda-feira, 23 de março de 2009

sexta-feira, 20 de março de 2009

Ser Ateu.

Sou ateu.
Estava na casa de minha namorada, quando pego a Isto É do dia 28/01/2009, em um artigo com o nome “Ateu, Graças a deus”, da jornalista Maíra Magro. (quem quiser ler a matéria, aqui vai o link: http://www.terra.com.br/istoe/edicoes/2046/artigo123913-1.htm).
O titulo me deixou puto, por que diabos ligam sempre o ateu a deus? Que coisa mais ridícula. Pensando em criticar a matéria, me deparo com algo muito curioso, fico contente em ler algo relacionado a isso, e tão bem colocado. Fez-me sentir um ateu mais feliz. Porem, duas passagem me deixaram na vontade de criticar a matéria, e por isso, criticarei.
Primeiramente o maldito titulo, “Ateu, Graças a deus”, hei de concordar que, se ninguém ficasse falando em deus por ai, eu não precisaria ficar falando que não acredito em deus por aqui, mas como falam, então... Como sou contra a opinião das outras pessoas sobre a existência de alguma entidade divina, torno-me ateus graças a me opor a idéia principal, a de que existe uma força superior não social e dita divina. Bom, e daí? Eu não acredito em deus, não é ele que me faz ateu, são minhas leituras, vivencias e experiências de vida. São opiniões tanto políticas quanto culturais. Fatores que levo pra minha vida, conceitos que me dignificam e me enobrece como um homem que prima ter uma opinião sobre algo. Entre elas, ser ateu. Desta forma, deus, sua existência ou não, não entram na equação.
Vejo, em muitos casos, que muitos tornam-se ateus pelos próprios atos de deus, ou seja, ele ser um sanguinário, favorecer somente alguns, egoísta e desinteressado. Somado a varias outras historietas que permeiam a bíblia, encontramos motivos e mais motivos para deixar de crer. Alem da incoerência religiosa e a falta de necessidade de depositar fé em algo, no mínimo, imaginário. Isso trás sentido ao ser ateu "graças a deus".
Porem, não agradeço a matéria pela existência do vácuo. Nem a escuridão pela existência da luz. Elas existem, e que bom que existam.
Outro momento na matéria, que achei delicado, talvez na tentativa de ser engraçada, mas não me cheirou bem, foi à idéia que a autora passou: “...novo ateísmo começaram a praticar uma espécie de pregação da descrença. Ou seja, estão quase criando uma religião - diferente, mas com o mesmo objetivo de tentar persuadir as pessoas de uma verdade que julgam ser ideal.” Criando uma religião... diferente... Que comentário estranho... O diferente depois do hífen faz pensar na tentativa de induzir um pensamento. A grande maioria dos ateus, se não todos eles, são mais ante clericais que ante deus.
O que complica o mundo historicamente, e socialmente, é uma força opressora de pregação de descrença no homem nas palavras dos religiosos, não vamos apontar o dedo só pros católicos, afinal temos a Jihad, os Judeus, protestante as pencas, até algumas áreas do budismo, ou seja, nunca um grupo de ateus se nomeariam como seita, culto muito menos religião, mesmo que ela fosse - diferente.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Este cara é o Nelson, diretor de cinema aqui em curitiba, e esta envolvido em um curta metragem que tambem estou no grupo graças ao meu irmão Fernando Moura (o lobo), o filme ja tem nome, se chama Alfazema, será rodado dia 28 de março e logo faremos uma estréia dele aqui em Curitiba. De fato ainda tem muita coisa a ser feita e o Nelson ja nos alertou do quanto pode ser estressante um set de filmagem.
Espero postar mais algumas coisas sobre o filme.
Dica do dia: violência leva a violência, isso é bom, ninguem começa um briga esperando ganhar flores (exceto as mulheres).

terça-feira, 17 de março de 2009

Quem viu e não bateu palma...

Um professor na faculdade dizia: "design mata." E mata mesmo, qualquer sinalização erroneamente aplicada pode nos levar a caminhos realmente inusitados, não só as de trânsito. Mas o design pode causar coisa pior em nossas vidas quando trucida uma informação sem ao menos pensar no que pode acarretar, e foi o que aconteceu com livros educativos da rede pública. Imaginem o mapa da America do sul, mas agora troquem Uruguai por Paraguai, e junte a Bolívia com o verdadeiro Paraguai e mais algum pais faltando que não consegui ver bem qual era. PASMEM, quando eu disser que esse livro não será recolhido, pois os professores já foram avisados e existe o mapa corrigido na internet, ótimo, agora me digam quantos professores comprometidos temos no Brasil, agora na rede publica e somem com a quantidade de alunos desses com acesso livre a internet. Agora, sobre o possível designer que executou o serviço (pode ser pior e nem ter um no meio), mas caso exista um, ele merece que a profissão ganhe uma regulamentação, um órgão que responda e puna por ele, porque a grande maioria sabe muito bem fazer seu trabalho direitinho.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Ladrões de Bicicleta – Vittorio De Sica

Depois de um longo dialogo editorial, aqui estou eu de volta. Fazendo o que gosto. Critica de filme.
Lá estava eu, na biblioteca da faculdade, vendo os mesmo filmes que assisti ano passado em VHS, chateado por este ano não ter novidades. Ao conversar com os bibliotecários, me falaram que a faculdade esta começando a investir em DVDs e, para minha felicidade, eles tinham um dos lendários filmes do realismo italiano. Ladri di Biciclette – Vittorio De Sica – 1948 – Preto e Branco.

Pra entender um pouco deste magnífico filme, temos que adentrar na história do cinema. Estamos no pós guerra, Itália. Mesmo virando a casaca no meio fim, esta destruída, cheia de dividas e miséria. Uma população famosa historicamente pela produção intelectual, mas principalmente artística. O país que, após a guerra, torna-se sede do Vaticano.
E lá, como em todo o mundo, o cinema já se estabelecera. Porem, com poucos recursos, pouco dinheiro e muita miséria. Assim surge o realismo italiano, que influenciará o cinema brasileiro no futuro.
Realismo italiano é famoso por algumas características peculiares: - O largo uso de plano-seqüência (fazer cenas longas sem cortes). - Não usar atores profissionais, não o caso do “Ladrões de Bicicleta”. - Retratar as ruínas e miséria do pós-guerra. Há outras características mais, mas creio que essas três já bastão pra entender o contexto do filme. Agora, podemos adentrar na obra. Ladrões de Bicicleta tornou-se um dos clássicos do cinema, referencia em muitos lugares, pela sua fotografia e roteiro magistral. Nos carregando em uma agonia e desespero triste. Se alguém não gosta da sociedade ou tem coração sensível de mais, pode ser uma experiência chocante. Não há violência explicita no filme, nem mesmo sangue ou tiroteios. Somente um homem que, após dois anos esperando um emprego, ele consegue, colador de cartazes, e só o consegue por possuir uma bicicleta, não que elas fossem raras.
Animado, ele anima toda a família, depois de tanto tempo, conseguem prosperar um pouco, ele conseguiu um emprego! E tudo vai mudar.
O relacionamento dele com a esposa é bem curioso. Não é explicito, mas não existe um amor ou um cavalheirismo, talvez um companheirismo em meio aos problemas. Há uma passagem em que ela esta carregando alguns baldes de água e ele não da à mínima pra ela. O garoto, filho do casal, é o grande astro do filme, um italiano sangue quente, batalhador, que ama e respeita o pai.
Toda essa alegria se perde ao momento em que a sua bicicleta é roubada, o levando ao desespero. Conseguir essa bicicleta de novo é trazer novamente a esperança para sua família. O filme continua, com reviravoltas e densidade. Nos deparando com uma certa corrupção, onde, mesmo podendo fazer a justiça, a policia não pode fazer nada.
O mais interessante é que, uma simples bicicleta, torna-se a coisa mais importante que você já viu, e você entende por que. As cenas finais, quando você vê o conflito nos olhos do ator, sente a presença de seu filho e um mundo violento gerando a violência. Você entende a ação do personagem, e entende o que é o desespero humano. Ainda mais quando um dos envolvidos na cena grita para ele, “tenha fé em deus”, você sente o chute no saco.
Um filme denso e dramático. Triste. Que nos coloca na degeneração humana, e no exemplo de uma sociedade corrompida que corrompe. Os motivos que levam um homem bom e sorridente e se perder, e você sente isso acontecer.
Vale a pena assistir, ficar quieto um pouco depois pra poder absorver a dura realidade de uma Itália Pós-Guerra e entender que, talvez, este não seja um filma tão antigo assim.