Engraçado. Estou sentado em uma cadeira, ao lado de um amigo, nos dois quietos, esperando.
A delegacia esta cheia de policiais sorrindo, civis com caras fechadas. Vejo também dois policiais de rua com cara de tédio, prancheta na mão, creio que eles também esperam.
- Sabe? – começo puxando assunto com meu amigo. – Isso tudo é uma sopa.
- Como assim? – responde ele, esboçado um sorriso. Entendo ele, não consigo sorri muito também.
- Não uma sopa normal. Aquelas grossas e viscosas, sem legumes nem nada. Só caldo grosso.
- Sei, mas o que quer dizer com isso?
- Tudo isso, não só esta delegacia, mas a situação do todo. Ela não escorre, mas se sustenta como ela é. Tecnicamente ele não é viscosa, nem mesmo grudenta. Simplesmente uma grande unidade de mesma forma, moída e misturada em um liquidificador. Onde, se for tentar definir realmente o que é o que, você acaba defindo tudo como sendo uma única coisa. Uma sopa. Não se pode definir um problema, nem mesmo apontar uma direção, pois tudo é assim. Não importa a luz nem a perspectiva que você olha, tudo é simplesmente uma sopa.
Ele sorri de novo, fala baixo um “entendo” e sorri novamente. Ficamos quietos novamente.
- As vezes, - continuo – não parece fazer sentido nada. Se formos analisar tudo que aconteceu até agora, acharíamos tantas hipóteses absurdas, que ou nos tornaria paranóicos, ou loucos. Talvez, a ignorância nem seja uma escolha.
- Continue...
- Assistiu aquele filme: “O misterioso caso de Benjamim Button”?
- Claro, muito bom!
- Lembra aquela momento em que ele começa a descrever a passagem de uma seqüência de acontecimentos que fulminam no atropelamento da mulher? Dizendo que, se alguma dessas coisas tivesse acontecido de maneira diferente, tudo teria sido diferente?
- Nossa, lembro sim, tem um termo japonês pra isso. Não é destino, mas simplesmente uma seqüência de fatos que causam outros fatos. Dizem que, o bater das asas de uma borboleta em Londres pode causar um conflito no Japão. Não lembro o termo.
- Tipo teoria do caso.
- Também.
- Se formos lembrar de tudo. Decupar os fatos até agora, podíamos ver que, em algum momento podíamos ter evitado. Porem, não faz sentido pensar em evitar. Olhar pro passado é algo até que simples. Mas olhar pro futuro parece tão improvável...
- Dizem que podemos tentar antever esses fatos.
- Acho que poderíamos, com certa experiência de vida e tudo mais. Mas... será que não viveríamos em paranóia? Com medo de fazer as coisas. Creio que, por natureza humana, pessimista como ela é, sempre olharíamos o lado catastrófico das coisas.
- Talvez.
O Silencio impera novamente.
Em meio a isso tudo, policiais fardados sorriem e passam de um lado para o outro. Vejo, sem nem precisar ir até a porta, algumas viaturas estacionadas, e perto delas, alguns outros policias fumando e também sorrindo. Não entendo onde eles, que possuem uma profissão tão estressante conseguem sorrir, é quase meia noite, e lá estão eles, falando em celulares com musiquinhas chatas ou ridículas, e sorrindo. Há meia hora atrás falaram que não tinham nenhuma viatura pra mandar pro local.
Após um tempo, um casal estranho, um homem de certa idade senta a nossa frente com uma mulher realmente gorda com uma roupa que ficaria apertada em alguém realmente mais magra que ela. Os dois com faces serias e fechadas, ele cansado e ele irritada, como se ensaiasse algum discurso ou estivesse inconformada com alguma situação. Ficam ali um tempo, sem se olhar, sem conversar.
Um homem vem ao balcão e grita pedindo pelo dono da casa que tentaram invadir. La de fora entra um senhor, com roupas jovens de mais para ele, com passos ligeiros e prestativos. Seus olhos também estão cansados. Ele entra junto com o outro homem, e o silencio é interrompido por murmúrios e passos.
Após um tempo, uma garota magra de mais, eu diria que seria a dona das roupas da senhora gorda. Entra com um gorro, com uma cara de quem chorou de raiva, atrás de um senhor que parece que teve o rosto esculpido na madeira. Ele parece ter um sorriso, mas também parece cansado, seu olhos estão envoltos raiva. Poucos minutos depois, um garoto, talvez tão novo quanto a menina do gorro, entra pela porta, seu nariz esta visivelmente quebrado, ele esta de meias amarelas (sem tênis), calça jeans, uma camiseta azul clara suja de sangue, seus olhos estão inchados, como se tivesse apanhado e chorado muito ao mesmo tempo. Ele manca de uma perna, suas mãos nas costas presas em uma algema e mordendo seu braço com os dedos está um policial, rindo muito, seu sorriso esconde seus olhos, e todos o cumprimentam. A menina se levanta, quando ele passa, o senhor do rosto de madeira, também levanta os olhos do chão para olhá-lo. Todos parecem praguejar. Ele some pela porta também.
- Quantos anos você acha que ele tem? – Pergunta-me meu amigo.
- Nem mais que dezoito. – respondo
- Acho que nem dezesseis. – Ele complementa.
Ficamos ali. Sem motivo algum, a mulher de roupas apertadas grita: “to olhando prá você? Então para de olhar pra mim”. Acho que ela estava falando com a menina do gorro. Tento ironizar na minha cabeça sobre alguma briga de meninas sobre quem usou a roupa de quem, mas a piada se perde. Entendo o que as pessoas dizem sobre algo ser engraçado em determinados lugares e não ser em outros.
De repente, um homem com uma camisa rosa com botões metálicos parra no balcão e pergunta: “quem é o próximo pra fazer um B.O.?” vejo todos se agitarem ali. Levanto a mão como um aluno que é chamado pra fazer um exercício chato no quadro. Meu amigo se adianta e fala “Nós”. Levanto-me atrás dele.
A conversa se entedia entre o que aconteceu e por que estamos ali. Respondemos sobre o assalto, roubaram o som do meu carro e quebraram o vidro do carro para isso. O cara pede para entrarmos.
Na sala, temos aqui mais policias, alguns sorrindo menos, outros sorrindo muito, alguns cansados, outros andando de um lado para outro. Uma bancada com civis em volto, o homem que teve a casa invadida esta entre les. Outros civis, ou homens sem fardas, também estão em volta do balcão, um deles muito serio pedindo calma e ouvindo todos. Estão falando baixo de mais pra ouvir, e o som da sala não permite que eu consiga ouvir exatamente o que falam. Porem passamos rápido por essa sala, e entramos em uma saleta, onde tem uma mesa, com um computador em cima, uma impressora, e ao fundo um arquivario de gaveta tripla. E uma placa metálica brilhante escrito em letras garrafais “Proibido o uso de celular no recinto” ou algo como “Desligue o Celular”, não lembro bem agora.
O homem de camisa rosa se senta em frente ao monitor, e nos do outro lado da mesa em duas cadeiras. Iguais as que estávamos sentados lá fora.
Ele pergunta o que ouve. Meu amigo fala mais que eu, estou me sentindo cansado com tudo isso. Sem animo pra falar, ou reclamar, ou o que quer que seja.
Explicamos que era festa de aniversario de meu amigo, que estávamos nos divertindo, e dando risada, havíamos jogado futebol até umas dez horas, e tínhamos senado para jogar Can-Can. Não tínhamos bebido, nem nada, acho que eu nem jantei direito, acho que eu tinha olhado pra carne na churrasqueira pensando em pedir pra fazer ou pegar umas pra mim, não falei isso pro guarda. Lembro que entrei em devaneio lembrando dos acontecimentos.
Eu tinha recém chego de ter levado a tropa escoteira para o Anhangava, um morro que tem aqui perto da cidade. Passei o dia todo pra subir e descer o morro, foi muito bom, a vista estava maravilhosa. Estou meio queimado do sol, mas valeu a pena. Cheguei em casa, falei que ia tomar banho para ir no aniversario, Já estava meio que atrasado. Eu e outros amigos meus que haviam indo para o morro comigo combinamos de nos dar carona, meu pai não havia me deixado pegar o carro, então pedi para um outro amigo me buscar, porem, após o banho, meu pai diz que não vai mais usar o carro, e me deixa ir para o aniversario dirigindo, fico feliz. Íamos em 7 ou 8 no Twingo do meu amigo, acho que não caberia, com o carro do pai podíamos dividir as caronas.
Quando minha carona chegou, avisei a ele que íamos nos separar para buscar nossos amigos. Marcamos de nos encontrar já na festa. Passei pegar minha namorada, depois fui pegar um amigo que me pediu pra ir buscar a namorada dele também. Fomos lá, e logo a pós fomos para a festa. Ao chegar, não havia vaga na frente do prédio, porem, deixei na esquina mais próxima, atrás de outro carro.
Fomos rindo e conversado pra festa, era só atravessar a rua. Lembro de ter visto o carro de um amigo estacionado e que, se eu forçasse um pouco, dava pra por o carro na frente do dele. Mas deixei quieto, preferi não incomodar ninguém. Fomos à festa, todos já estavam lá, faltava só um que ia vim de moto com a namorada.
Ai a festa começou, demos muita risada, comemos docinhos e jogamos truco. O aniversariante não é de beber, então não teve bebida alcoólica no aniversario dele. Jogamos bola em um campinho minúsculo. Foi bem divertido, rimos muito. Minha namorada quis jogar também, então ele pediu minhas roupas, falei que daria pra ela, mas antes de trocarmos de roupa, meu amigo chegou com a namorada dele, e após um tempo, elas trocaram de roupa, minha namorada pegou meu tênis, e foi jogar com os meninos. Fiquei descansando um pouco no salão de festa, estava bem cansado do dia longo, fiquei conversando um pouco, e decidi ir ver o jogo. Mesmo descalço entrei em campo, e joguei o restinho do tempo que tínhamos pra jogar.
Foi divertido, não consegui fazer muito, pois estava descalço, mas deu pra dar risada. Como sempre. Dez horas paramos, leis do prédio. Sentamos para jogar can-can, ou uno. Jogamos umas três partidas, talvez quatro e o interfone toca, o aniversariante atende, e escuto a única coisa que eu não imaginava escutar. Acho que ninguém espera. Eu nem moro ali, quando se toca o interfone você nunca pensa que é pra você. Pela cara preocupada de meu amigo, imaginei que tínhamos feito barulho de mais, de novo, e ele ia receber uma multa, de novo. Mas então ele fala “Alguém ta com um palio vermelho na rua?”, respondo que eu, “Cara, acabaram de falar que estouraram seu vidro.”
E agora, estou eu e ele aqui. Sentados em uma delegacia relatando o trivial de nossas vidas. Que meu carro tinha sido roupado, quebraram o painel, e levaram o som, e meus CDs. Meus nada, do meu pai. Os primeiros CDs do Chico Buarque, e outros clássicos da MPB, alguns de musica clássica, mas isso não importa também.
Nada importa. Nem o assalto importa, nem o vidro quebrado importa, nem os CDs, nem o fim da festa do meu amigos, nada.
A grande sopa engloba tudo. Fazendo tudo ser a mesma coisa. Sem importância, sem vida. Sem cor, sem sentido.
A felicidade as risadas não estão mais aqui, não pertencem mais a mim. A festa, divertida e memorável se foi com todos correndo para a frente do prédio. As meninas ficando para trás. Os garotos correndo. E a noite ficou mais escura. E as cores se foram, e a luz se foi. E eu vi meu carro parado do outro lado da rua. E pessoas em volta. Atravessei a rua, e todos vieram junto. E o vidro estava no chão, o painel quebrado. De repente todos começam a agir diferente. Meus amigos ouvem boatos que o ladrão foi por ali, e eles vão atrás. Dizem que encontraram, mas ele podia estar armado. Eu não consigo pensar em mais nada, a não ser que meu pai usa o carro todos os dias pra trabalhar, como ele ia usar um carro assim? Havia vidro em todo o banco de traz. Os CDs tinham sumido. Eu estava ali, descalço na noite. Olhando meus amigos arrumarem o painel. Ficamos ali, alguns me consolando, outros reclamando da vida, outros tentando pensar em alguma solução. A irmã do aniversariante vem e solta um sermão sob nós, falando que estamos agindo como idiotas, algo assim, fala que o mundo é ruim, e que estamos agindo como idiotas. Não me lembro bem. Lembro que o namorado dele falou que ele dava dando o sermão nas pessoas erradas. Acho que fez sentido, eu tinha ao meu lado uma ilustração bem formada sobre como o mundo estava ruim.
Eu vi minha namorada conversando com outras meninas do outro lado da rua. E vi que, como uma coisa simples e idiota como essa podia estragar a noite de tanta gente. Ali estava, um carro com o vidro de trás quebrado, vários garotos (temos mais de 20, mas somos garotos) e a noite tinha indo embora. Na hora nem lembrava que tinha visto um lindo dia do topo do morro, nem que tinha defendido algumas belas bolas no gol. Nem de como era divertido jogar Can-Can. Eu só conseguia ver, de maneira inerte e sem cor, as pessoas se movendo e falando. Horas depois minha namorada me falou que queria poder fazer alguma coisa. Eu também gostaria de poder fazer, acho que todos ali gostariam... mas já tínhamos entrado na sopa...
Uma passagem engraçada foram dois moradores da rua, muito estranhos, que vieram falar do roubo, vieram cheio de razão, falando que sabiam quem era, que previram tudo, que viram, ligaram para a policia 5 vezes. Repetiram a mesma história umas 10 vezes. Falaram que a rua era perigosa umas 20 vezes. E sumiram dali umas 100 vezes mais rápido que chegaram quando souberam que o policial, primo da namorada do amigo que eu havia buscado, estava chegando. Eu, particularmente, não vi eles saírem. Sei que, até mesmo o primo, tenente da policia, com sua caminhonete grande, não tinha o que fazer. Penso em como foi inútil a vinda dele, talvez tenha valido a pena pra rever a prima. Mas, bem... tudo ali, era sopa.
Em algum momento, na hora que estávamos fazendo o B.O. meu amigo fez uma conta sobre quantos crimes aconteciam por mês, que aquele distrito que estávamos recebia. Tava em torno de quatro mil e quinhentos. Tudo sopa. Quando meu amigo ia crescendo sua teoria de como estava violento o mundo, o celular do policial tocou. E claro, ele atendeu. Não sei, mas naquela hora, aquela plaquinha atrás dele brilhou mais alto. Sei que policial não é exemplo pra ninguém. Mas acho que aquela placa também deixou de ser um exemplo pra mim. Sopa.
Não pude deixar de prestar ouvidos na conversa dele. Lembro que ele falou “se me perguntarem uma história triste eu falo uma história triste, todo mundo tem uma”. Uma boa frase praquela noite.
Depois, ele reclamou de tudo, falou que a policia é uma merda, que o mundo esta sujo, que a violência esta passando do limite, que a policia do Paraná esta uma merda, mas ainda é melhor que as outras. Não tem policia nem viatura o suficiente. E que, é responsabilidade de mudar isso é do povo, que cabe a eles irem as ruas, de protestarem. De pedirem melhorias, de votarem direito. Claro, como se ele não fosse povo, e como se a policia não fosse a força de opressão contra esse tipo de reclamação. Eu estava lá quando invadimos a UFPR pedindo a saída do reitor e o fim do Reuni. E eu vi de que lado a policia estava.
O B.O. foi impresso. E fim da história. O vidro esta quebrado e o som por ai, alguém deve ter cheirado ele. Não creio que alguém quebre vidros de carro, e roube sons por ai, de maneira tão eximia, como se fosse um oficio, faça isso para comer.
Ainda estou abalado com tudo isso, mas me senti no meio do espetáculo da tragédia. De como as coisas são, acho que me senti curioso, mais que triste. Agora me sinto triste mais que curioso, nem falei com meus pais ainda. Meu irmão falou. Quando cheguei da policia eles já estavam na cama, e quando acordei eles já haviam saído, e quando cheguei da faculdade, eles já estavam na cama. Normal. Sopa. Mas uma hora acho que vamos conversar sobre isso. No mínimo agora já tenho algumas palavras. Acho que não vou explanar sobre a idéia da sopa... mas fica aqui se tiverem duvidas.
Pensamento do dia:
“As vezes simplesmente não sentimos o gosto, ou não definimos o que é. Não estimula o paladar, nem mata a fome direito. Mas da pra entender que tem alguma coisa acontecendo, e você não pode fazer nada pra impedir isso. Nesta hora, você sabe que esta envolto em uma Sopa.” (Finalmente entendo o ódio da Mafalda)
Fernando Scaff Moura