terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Into the Line

Engraçado. Em uma fila nos sentimos sozinho. Sozinho em uma multidão que estão fazendo praticamente a mesma coisa que você. Diferente do ônibus, onde estamos todos indo para o mesmo lado, mas saindo ou indo para coisas diferente, ou pensando em diversidades mil, na fila não há desculpa, podemos estar comprando por motivos vários, mas estamos comprando, no mesmo lugar e, na maior das coincidências, acabamos um do lado do outro, na mesma fila.

Não reclamo de não falar com ninguém quando estou em uma fila. Não tenho nada pra conversar, nem sei se a pessoa na minha frente leu o mesmo livro que eu, ou gostou dos mesmos filmes. Mas estamos ali, quase como um casal de namorados de tão próximos. Talvez trocamos um desculpa, por esbarrar na pessoa, mas isso nem foi percebido.

Uma sensação curiosa essa. Lembro que estava na fila, com “Cães de Aluguel”, do Tarantino, na mão, feliz da vida, e na minha frente uma senhora. Ali, andando no mesmos passo que eu. Não era uma senhora, era uma mulher formada, provavelmente mãe de família, vai saber, não conversamos. Mas quando estávamos para entrar naquelas baia repleta de doces e produtos, onde não teríamos mais como sair da fila ela, delicadamente, colocou a cestinha no chão, e saiu. Saiu sem olhar pra trás, sem abaixar a cabeça, e saiu. Porta a fora, em direção ao mundo. Sumiu.

Fiquei olhando a cena, olhei a cestinha, não estava muito cheia, alguns chocolates e coisas. E ela não estava junto de sua cestinha. Pensei em avançar alguns passos e assumir o posto que antes ela ocupava. Mas achei que poderia ferir um mártir. Uma heroína. Alguém que conseguiu fugir, da fila, do consumo e de outros grilhões.

Com o tempo, fui obrigado a dar alguns passos. Tudo foi para o esquecimento, aquela vaga vazia, aquele momento único que, talvez, somente eu tenha percebido. Entrei no matadouro, me seduzi por umas gominhas. Paguei. Lá estava eu. Pagando pelo que comprei. Como todo mundo.

Depois, sozinho novamente a luz do dia. Com o filme na mochila, ao lado da gominha. Não sei dizer o que senti. Mas pensei naquela mulher. Os motivos que a levaram sair da fila e caminhar imponente para fora deve ter sido vários. Talvez nem um pouco nobres como eu imagino. Talvez nem a postura tenha sido tão altiva, eu que tenha imaginado posteriormente tamanha desenvoltura. Mas a poesia do ato, a imagem marcaram minha retina da maneira profunda.

Eu acho que “Into the Wild” mudou a minha vida.

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