sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Um filhote de urso polar vagava pelo Ártico e pensava “Como seria bom uma raspadinha de morango”. Imaginava, em quando se afundava na neve macia e branca, o gelo ralado, a groselha sendo jogada por cima do copo com o gelo muido, o canudinho colorido, e ele sentado olhando a imensidão do oceano enquanto bebia sua delicia gelada.
Com o tempo, o desejo foi assumido um outro sentimento. Não mais o desejo infantil, mas o desejo selvagem. Ele falava para si mesmo “Eu faria QUALQUER COISA por uma raspadinha de morango”, via-se roubando uma, correndo com ela o mais longe que pudesse, e sentia um sabor muito mais saboroso que aquele em que curtia sentado em frente ao oceano.
O sabor gelado o fazia salivar, seu pelo arrepiava com o paladar tentando recriar o gosto imaginário, ele lambia a neve na tentativa de fingir um sabor inexistente. Parecia sentir o cheiro em todo o canto e ouvir o som característico de uma raspadinha sendo feita. Ele vagava, impaciente, “Eu faria qualquer coisa por uma raspadinha de morango, QUALQUER COISA” e rugia interiormente validando suas palavras. Socando a neve com uma fúria que nem ele sabia possuir.
Em um momento, ele deixa de olhar para dentro de si, remoendo um instinto novo que sentia, e viu. Ali, não muito longe. Ao alcance de suas garras afiadas e assassinas. Uma foca. Uma foca pelada comum ao sul de onde ele se encontra (em fim, quase tudo se encontra ao sul), ela bate suas patas frontais, faz o som característicos de foca (huu-huu) se abaixa, e chupa no canudinho azul e verde, o néctar da raspadinha. O filhote de urso fica atônico, impassível admirando a cena. Aquela raspadinha, não somente era de morango como tinha leite condensado com coco. Dava pra sentir o cheiro, o sabor, a consistência. E ali, a foca, feliz e contente, olhando a imensidão do oceano, se abaixava, chupava o canudinho elegantemente colorido, e gesticulava novamente, feliz da vida.
O filhote sente o sangue ferver em seu intimo. Basta avançar, silenciosamente meter uma garrada precisa em seu corpo macio de foca, morder com a pressão exata a jugular, e a raspadinha seria sua. Só sua. Mas ele não quer fazer algo silencioso. Ele quer sangue, barulho. Desespero, pedidos de perdão. Oh sim, ele quer destruir aquele foca. Suas patas começam a ficar dormentes, ele olha para elas como nunca antes tinha visto. Sente a violência e o poder que tem nas mãos. Sua mandíbula se encontra travada, firme, imponente. Ele sente o ódio em seus olhos, sente que estão injetados com os desejos íntimos que sente.
Ele se prepara. Com seu porte de urso polar. Caminha sentindo cada músculo de seu corpo responder com precisão e agilidade. Ele arrasta as unhas no chão deixando um rastro. Sentia as patas dormentes, ansiosas para o que ira acontecer. Para cada “huu-huu” que a foca feliz fazia, mais instaurava nele um desejo assassino.
Estava só os dois ali, ninguém mais. Na solidão desértica do ártico. Somente o vento balançava seus pelos brancos como as nuvens. Seus dentes estavam a mostra. Um rugido surgia em sua garganta. Ele começava a ficar nas duas patas, ia rugir como um Urso Polar Adulto (a única referencia que ele saberia dar) e destroçar aquela coisa negra e oleosa que fazia “huu-huu”. Preparou suas garras. E uma pata grande demais encosta em seu tronco. Ele olha, a foca também olha, ali um urso polar adulto olha para baixo. Um gigante pra ninguém botar defeito. Sua barriga volumosa praticamente faz sua fuça se esconder, dando um ar misterioso e imponente a criatura. Sua presença causa medo. Em algumas culturas de focas, um urso polar significa morte coletiva. Um sinal que os mais experientes nunca tentaram colocar a prova.
Da outra pata, grande, quase do tamanho do urso polar filhote, surge uma raspadinha de morango, com leite condensado e coco ralado. O urso filhote pega, sentindo toda aquela excitação violenta se ir, como a areia de uma ampulheta nos ultimo segundos, mas sem ir embora por definitivo. Ele olha pra raspadinha, olha para a foca, olha para o grande urso, sorri. O cheiro é muito bom, ele olha novamente pra cima. – “Obrigado papai.”. o urso polar adulto sorri, ou parece esboçar um sorriso, e sai andando para onde veio.
O urso polar filhote da um gole meio tímido na raspadinha, e sente felicidade liquida e gelada. E se senta. A foca se senta também. Um do lado do outro. Olhando a imensidão do oceano.
P.S.: Esse conto é uma resposta as pessoas falarem que eu só escrevo coisas depressivas, e achando que, com isso, eu sou um cara depressivo.

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