O tempo passa inerte por mim. Como uma gelatina gélida e insossa. É estranho como as cosas escorrem ao meu redor, o tempo, o espaço, o calor fumegante das ruas, o vento poeirento do fim de tarde. Nada parece estar em seu lugar exato, só e simplesmente, escorrendo. Entendo o que Salvador Dali quis dizer.
Entendo perfeitamente.
Se as coisas não estão escorrendo, estão fora de lugar, desmontadas, confusas em um cenário ermo. Como se tivéssemos que olhar profundamente e metodicamente para entender o obvio, como um galinha botando um ovo, ou uma multidão andando silenciosa por uma rua barulhenta. Por mais que se olhe, tentei entender coisas assim, elas parecem que tem algo errado, algo complexo de mais por traz de uma simplicidade.
Rorcharsch já nos mostrou que o mundo é ruim, que as ruas são lixo e que as grandes cidades fedem a imoralidade e a violência. Um belo quadro sem moldura esquecido em um galpão velho. Imperceptível por entre as teias de aranha.
Se juntarmos essa idéia de mundo com as obras do Dali teríamos o que? Uma Guernica? Sem tanto ângulos pontudos? Confuso. Pouco sei o que é mais confuso, a realidade ou a irrealidade, a arte imaterial e interpretativa do mundo ao nosso redor. A arte por si. A arte para nós, e a arte autoral. Onde esta a realidade que eu vivo?
Dali, por mais pessimista que parecesse, isso em uma interpretação minha, ainda via cores no mundo, via humor no tempo incerto e na natureza humana, Picasso já aprece um cara que desistiu. Por mais que os dois digam algo, que pode muito bem parecer profundamente elaborado e simples para se entender. É o mundo? A vida? O universo? Tudo o mais?
No fundo parece mais certo acreditar que Duchamp sabia das coisas, o mundo é a elaboração do presente em meio às poucas coisas que sempre estão ai, e a arte nada mais é que a interpretação pessoal do interlocutor ao se defrontar pela primeira vez com a obra. Bom, o menos é isso que eu interpreto ao olhar um mictório com uma assinatura. Ou um pote de merda. O tempo não escorre em uma interpretação do simples e complexo cotidiano, nem mesmo é um quarto escuro onde todos nossos pesadelos residem tudo é uma roda de bicicleta sobre uma cadeira. O tempo, o mundo, as coisas simples, a infância e as ruas, tudo está nas aspirais violentas do destino, no olhar pra baixo na rua, no perceber o detalhe da nossa existência, no absurdo completo de um salão de arte permitir tudo isso, quebrando os conceitos, elaborando não só a arte, mas o cenário, o ambiente, a profundidade disso no cotidiano, afinal, quanto tempo cada um demorou a olhar para o tal mictório e pensar, “mas que porra é essa?” e com o tempo, se sentir sorrindo, pensando nas possibilidades. Otimista, talvez. Uma arte mais otimista, mais engajada talvez. Pois, pensamos, ao olhar a imagem, quem ganhou a partida de xadrez? Porem, será que o mundo é assim? Será que eu me sinto assim? Será que a arte representa tão bem seu tempo assim? Eu realmente queria um cronometro marcado 15min para meia noite escorrendo pela parede.
E o Mondrian? Esse sim é um mago! Uma cidade, com suas partes importantes, com suas quadras precisas da modernidade remanescentes, sem mudanças, sem estagnação, precisa, métrica, bruta, e colorida. Talvez o que me incomode em Mondrian é o fato das cores quentes. Será que foi intencional? Sentir que ele quer dizer, “essa a sua cidade, vista de cima, você não é nada nela, você faz parte dos traços, ou esta escondido dentro dos quadrados, mas, em suma, você é uma formiga aos olhos de um deus maior, desinteressado e criador” talvez será um quadro para o Dr. Manhatam. Mas a cores, será que ele quer dizer, “mesmo assim, as estações mudam, e você vai ouvir os passarinhos cantarem naquela tarde ensolarada após o trabalho”.
Ia arte é algo muito complexo. Às vezes valorizamos de mais o artista, damos a ele um status que nem mesmo ele sabe que possui. Digo isso no caso das pinturas. Os livros, o cinema, os quadrinhos e musica elas tem claramente um arte mais fácil de perceber, por trás de uma técnica e estética compreensíveis. Entendemos as linhas, às vezes percebemos para onde o autor quer nos levar, fazer sentir. Não é uma arte dada, mas é uma arte assimilável com a realidade. Mas a pintura, muitas vezes, parece um improviso sem fim. Diferente da arquitetura, que você sente, compreende coisas e sentimentos aos e deparar com uma bela arquitetura, quem já adentrou alguma coisa do Niemeyer sabe do que estou falando, muitas vezes me passa pela cabeça “como?”.
Mas a pintura, recentemente, parece ter perdido sua função. Dali, Picasso, Monet, Da Vinci até o Van Gogh e suas flores estranhas, pareciam entender e impressionar mais com os quadros que a modernidade.
Uma vez, em uma galeria de arte (não sei se posso chamar o Museu Oscar Niemeyer de Museu), vi uma exposição de intuas feita por loucos em um hospício. Isso foi algo interessante, pois tinha o problema mental do individuo e seu desenho. Então vc sentia como alguém com tal perturbação via o mundo, como ele compreendia sua realidade. Sem mentiras, expressando um problema real e exclusivo. Não sei se posso ver o Mondrian da mesma forma. Não sei se tenho que interpretá-lo como alguém que tem problemas. Por que, por mais que eu tente, ele não parece ser alguém que sofreu na vida ou que tem problemas agravados de sua infância, parece só um cara que não prestava atenção nas aulas e ficava desenhando quadrados no canto do caderno, e percebeu como era bom nisso.
Isso me fez sentir o mundo mais complexo e profundo em sua simplicidade. O tempo escorrer mais devagar, e os cantos pontudos serem mais arredondado mesmo que seja um arredondado sem tanto motivo, só é por ser.

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