Cá estamos, 1873, interior do estado do Paraná. A alguns minutos atrás a mãe entrou no quarto e avisou suas filhas que um viajante estrangeiro ia visitar sua casa, e que elas iriam para a sala cumprimentá-lo. Algo raro, sempre que alguém visita a casa, elas ficam no quarto, trancadas. O ultimo homem que elas viram foi seu pai, e ele estava saindo da mesa do café da manha para que elas se sentassem para o desjejum. Quando eram mais meninas elas iam brincavam com os filhos e filhas das fazendas da redondeza. Mas agora, não os vêem mais. Na missa elas entram de cabeça baixa e saem de cabeça baixa, não vêem ninguém, tem vergonha de ver alguém, ver um homem, ainda mais na casa de deus. E hoje, elas iriam sair do quarto em uma visita e ver alguém. Claro que a imaginação vai longe.
Ao todo elas são em 5, a mais velha tem 16 anos, seu pai falou que já esta na hora de casar, arranjar um bom marido e seguir a vida. Ela também quer isso, mas tem medo. As outras já foram avisadas que a vez delas também ira chegar. Todas pensam nisso dia após dia. Realmente não há mais nada a se pensar. Não que elas reclamem, mas não existe muita opção.
Elas estão todas sentadas, as duas mais novas estão sentadas no chão, abraçadas com o próprio joelho, para elas, homem significa dor. Uma vez, uma tia havia vindo visitá-las, era uma benzedeira. Quando sua mãe não estava perto, ela contou como as coisas aconteciam, todas ouviram horrorizadas a discrição, que teve que ser interrompida na metade com a chegada de seus pais. Após isso, tudo era especulação.
- Entra aqui. – disse a menina segunda mais velha, Maria da Graça – acho que fica assim até uma luz divina aparecer, e ai o bebe entra, junto com a luz.
- E a dor? – pergunta a segunda mais nova, Cleonice. – A tia tinha dito que tinha dor.
- Sem dor – continua Maria da Graça – Deus quer que façamos isso. O padre falou na missa aquela vez.
- Tem dor sim! – Disse a terceira. Socorro era seu nome. – lembra quando agente colocou aquilo aqui? Doeu um pouco e nem entro direto.
- Mas não teve a iluminação divina! – Diz Graça – Quando é em beneficio divino, não ter dor.
- Eu senti dor... – murmura Socorro.
- Eu não quero isso. Vou falar pra mamãe que serei freira, me casarei com Deus, e não terei dor alguma. – A caçula, Maria Aparecida, quase grita, e esconde o rosto nos joelho começando a chorar. - ELE não vai me deixar sentir dor.
Maria da Graça desce da cama para consolar a irmã. Cleonice também a abraça, e chora junto dela.
- Mas não haverá dor. – Fala Graça, afagando o cabelo da irmãzinha. – Será por Deus. Se você aceitar a devassidão, ou não for batizada, sentirá dor, caso contrario, Deus te iluminará.
- Você não tem certeza. – Aparecida murmura secando as lagrimas.
- Vocês não tem curiosidade de ser mulher? – insiste no argumento Maria da Graça.
Todas ficam caladas. Olhando pro chão. Após um tempo elas escutam o som da frente abrindo, seu pai cumprimenta o visitante e começam a conversar.
- Uma vez. – Linda, a irmã mais velha rompe o silencio. Todas olham pra ela quase assustadas, é raro ela falar com as irmãs, na verdade é raro ela falar. – Papai me levou com ele pra fazenda. Eu queria andar a cavalo, e ele me levou. Era tardezinha, e quando chegamos ao rio, que tem lá perto da fazenda do Tonho. Ele parou pra descansar. Falei pra ele que queria entrar no rio, pra me refrescar, ele falou que não. Eu chorei pedindo, e ele deixou. Tirei minha roupa e entrei na água, pouco depois, papai entrou na água também. Eu fiquei feliz dele ter entrado comigo. Mas depois tudo ficou entranho, eu tinha jogado água nele e ele em mim, estávamos rindo. Depois ele me abraçou. Me senti confortável. Depois... – Os olhos de Linda mareiam com lagrimas. – Depois eu senti uma coisa estranha nas minhas pernas, e ele me forçou, e senti uma coisa, senti dor, muita dor, eu queria gritar, mas ele forçou minha boca contra o peito dele. Falou que estava tudo bem, que ele fazia isso com a mamãe às vezes. Depois de um tempo a dor foi embora e... eu senti um arrepio nas costas. Nunca tinha sentido aquilo. Foi diferente, tudo parecia diferente. Papai saiu do rio, pediu desculpas pra mim, eu não sei por que, depois se vestiu e subiu no cavalo. Gritou pra eu ir com ele. Eu tinha ficado na água. Eu me senti estranha, parecia que estava sentido calafrios, a dor tinha voltado um pouco, mas acho que era por causa da água gelada... Eu vi uma coisa que eu nunca tinha visto antes, como aquela coisa que os cavalos tem entre as patas de trás sabe? Só que menor, e no papai.
Todos estão ouvindo atentamente, o silencio é cortado pelo murmúrio de lamento de Aparecida. Maria da Graça também tem seus olhos cheios de lagrimas, Cleonice parece maravilhada com a história. Socorro tem lagrimas escorrendo pelas bochechas, mas não emite som algum.
- Foi ruim? – Socorro pergunta meio que soluçando.
- Não... não sei... queria que acontecesse de novo... mas papai nunca mais me olhou de novo, nem falou mais comigo. Acho que fiz alguma cosia errada, desde aquele dia me sinto diferente. Eu senti dor, mas senti algo... talvez seja essa iluminação que a Graça falou.
Todas se mechem em seus lugares. Milhares de pensamentos passam pelas suas cabeças. De todas as conversas que sempre cochichavam sobre isso, essa tinha sido a mais esclarecedora. Por algum motivo, todas queriam saber como eram.
- Será que o papai vai levar todas nós para o rio? Pra ensinar essas coisas pra gente também? – pergunta Cleonice com a sombra de um sorriso nos lábios.
- Será que isso é certo? – Indaga Socorro.
- Não sei... Mas acho estranho. Será que eu serei a próxima? – Maria da Graça abraça um travesseiro, ficando em silencio.
- Eu ainda tenho medo, mas parece que minha curiosidade percorre meu corpo todo – Fala Aparecida.
Todas ficam em silencio. Assim, quando ouvem a fechadura soar, e o trinco descer, todas se levantam vão esperar para sair, elas vão ver o pai dela de outra maneira, e um outro homem. E elas estão cheias de duvidas na cabeça.
Quando a mãe pede para elas iram até a sala, elas vêem o pai, e o outro homem, e vêem cavalos, rio e outras coisas estranhas e confusas, e riem, riem sem parar.
ps.: Sou um historiador. Sei que incesto e pedofilia é errado, e não compactuo com isso. sei quão horrendo é este texto. Porem, ele não foi escrito pensando no hoje, mas em outro tempo. Uma sociedade que, para os padrões nossas e também para os da época, era considerada ignorante. Isso não é um conto erótico.
quinta-feira, 26 de março de 2009
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