terça-feira, 12 de maio de 2009

Paris, Século XIX*

Hoje acordei e vi um dia nublado e frio. As ruas de Paris parecem um formigueiro pela movimentação mas um vespeiro pelo barulho. Espiro fundo e junto animo para descer a terra. Esfrego os olhos e me espreguiço como os malditos gatos que tanto odeio. Vou a janela e observo as pessoas que não param de circular de um lado para o outro. Não chegamos na metade do dia e lá estão elas, correndo, correndo e correndo. Pela minha infelicidade moro sobre a galeria Laffayet, a mais repleta de lojas e pessoas na capital. Minha cabeça dói e tenho vontade de me enfiar entre as cobertas como os cachorros que tanto odeio.


Visto meu roupão e saio do quarto. A caseira já colocou o café na mesa e o jornal sobre o braço do sofá. Mas a visão que me enche de felicidade é Le Blanc, o amor da minha vida, a razão da minha existência, o sorriso em meus lábios, o brilho de meus olhos. A tartaruga que esta na minha família a duas gerações. Grande, vistosa e verde. Caminha na velocidade que a vida deveria andar. Olho para aqueles olhos cansado e vejo o sorriso de satisfação em me ver, e também aquela expressão de bronca amena nos ombros dela por ter acordado tarde de mais e ainda não estar vestido.

Sento a mesa, tomo meu café, pão, vinho, torradas, caviar e vinho, um típico café da manha. Vou ao sofá, sento em minha poltrona macia, abro o jornal e leio as manchetes, leio as charges, vejo os desenhos magistrais de Toulouse-Lautrec. Sorrio e lembro de minha mãe. Por um momento lembro do seu cheiro, uma fragrância peculiar de carmim com charutos, tipo de uma francesa de nosso tempo. No inverno o toque daquele peculiar cheio feminino/masculino de suor se acentuada, mas ainda era algo agradável de abraçar. Em meio a devaneios sinto Le Blanc bater em meus pés. Olho para baixo, ela me encara com olhos de pesar como se percebesse minha dor e falta. Depois encolhe a cabeça e se senta. Sinto-me reconfortado, ainda bem que Le Blanc esta aqui comigo.


Termino de ler o jornal e descido dar uma volta. Vou a janela e me sinto só em meio aquela multidão. Não quero descer a rua sozinho, tudo parece tão apressado e incomodo... me sinto um personagem fictício em um mundo que corre sem querer saber a minha história.

Volto-me para a poltrona e vejo, parada em meio a sala, Le Blanc, me encarando, me dando ânimos, se oferecendo para fazer companhia. Sorri como uma senhora que é, como quem diz “Vamos! Nos dois precisamos de sol!”. Respondo “vamos!”


Visto uma roupa mais informal: calça de linho preta, meias lisas e sapato de couro. Uma camisa de linho italiana azul clara, um colete preto lustroso, terno inglês preto também. Uma gravata de linho azul marinho e uma confortável cartola. Deixo as abotoadoras e a presilha de gravata na gaveta, só quero dar uma caminhada. Coloco o relógio no bolso, após arrumá-lo com o da igreja no fim da galeria, a qual consigo ver perfeitamente da janela de minha cozinha. Tiro a velha coleira de Le Blanc do armário. Visto-a. Ela se agita um pouco impedindo a operação, mas logo após mencionar o passeio pela famosa galeria ela se acalma, a isso aviso a ela que comprarei um Pettit-gateau na volta.


Ao abrir a porta eu e Le Blanc nos deparamos com um mundo agitado e tempestivo. O dia esta frio, então olho para Le Blanc para lhe perguntar se quer mesmo sair a campo, porem já a vejo agitando os primeiros passinhos. Sorrio com o animo de minha companheira, já faz algum tempo que não saímos juntos, talvez seja um passeio legal.


Após algum tempo eu consigo fechar a porta de minha casa, e já neste começo vejo como o povo parisiano é amigável, recebi vários bom dia e desculpas sem mal dar um passo. Comerciantes e consumidores andando de um lado para o outro, pulando por cima de Le Blanc e de meus pés. Sinto-me mais animado a continuar esse passeio.


Após um tempo sinto fome, devem ser metade do dia. O lugar esta apinhado de gente, e continuo recebendo uma onda de Bons Dias e Desculpas e Com Licença das pessoas. Todas muito educadas e muito polidas, menos um que gritou algo em um língua estranha que não compreendi o que era. Com o tempo as pessoas começam a ser obrigadas a seguir o meu passo e, assim, diminuir o ritmo do delas, sendo que eu ando no passo de minha companhia, não quero ser mal educado e arrastá-la por ai, qual seria o sentido de caminhar pela galeria se não caminhar por ela?


No fundo, começo a achar que estou fazendo um bom favor a todas elas, diminuindo o ritmo dos passos, elas podem começar a prestar atenção na vida a sua volta, na beleza das galerias e das construções.

Ao meu redor começa a tumultuar gente querendo passar, porem sigo firme no meu passo, Le Blanc não aprece concordar comigo, hora ou outra sigo um puxão na coleira, então sigo os passos dela. Acho a cidade muito agitada, muita coisa acontecendo em muito pouco tempo, a beleza e a poesia se perdem em meio a calçadas pretas e brancas e arcos de ferro das construções nas galerias. Tudo parece se resumir a vitrines e se acotovelar por um espaço.


Entro em um restaurante e peço uma Omelete com Queijo, duas saladas, um pato ao molho de laranja com alcaparras e batatas doradas e dois Pettit-gateau. Como minha entrada com a salada, e dou uma das saladas para minha amiga. Ensino-lhe uma lição valiosa sobre a digestão começar na boca. Hora ou outra tenho que alertar Le Blanc que outras pessoas comem ali, ela não precisa comer de boca aberta, mesmo sendo idosa, ela tem que ser educada, dar o exemplo. Após isso, nos dois começamos a comer nossa sobremesa.


Descansamos um pouco olhando a pressa das pessoas do lado de fora. Mesmo em silencio, concordamos que tudo isso é um caminho sem volta. Suspiramos ao mesmo tempo. No fim, o dia esta sendo bem agradável.


Em um momento da volta até minha casa um grupo de pessoas vem me cumprimentar pela critica que estou fazendo, e dizem que quer me encontrar amanha para todos passearem com tartarugas pela galeria. Marco um horário com eles, me sinto feliz, nada como companhia para andar, Le Blanc também parece feliz em saber que amanha conhecera outras tartarugas. Nada como um dia após ao outro.


No entanto, em grande parte do caminho ficamos pensando, de que critica eles estavam falando?

* Este é o titulo de um texto feito por Walter Benjamim.

Ps.: Pessoas passeando com tartarugas pelas galerias de Paris foi algo que realmente aconteceu. Só fiz uma alegoria.

Ps.: Existem varias referencias reais no texto, talvez compreende-las dêem mais humor a ele. Só por no Google que acha.

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