Meus diários cheios de paginas marcadas e arrancadas só me mostram uma coisa. Meu passado é uma mentira. Vejo riscos e rabiscos de correções e anotações nos cantos da pagina que, para mim, só podem ter sido escritas anos após aqueles acontecimentos.
Vejo como minto para mim mesmo. Meu passado nada significa, minhas anotações nada importam, anos e anos sem lembrar se realmente fiz, ou me fiz fazer, para lembrar com nostalgia de um passado estranhamento distante de mais.
Não sei se realmente gostei daquela musica, ou se dancei aquela valsa, ou me fiz dançar. Se os lábios daquela menina realmente são macios e úmidos como lembro, ou simplesmente mostro meu desejo intimo de algo que quis que fosse.
E como mudei minha vida graças a essas mudanças. Fui confiante, foi forte, fui sábio, pois na juventude o era, e agora, agora vejo com sabedoria que as paginas arrancadas e as marcas de corretivo simplesmente são minha ineficácia em viver minha juventude, e não sei mais como foi esta juventude, se foi minha, ou dos filmes que vi e livros que li.
As historias são contadas e recontadas, e muitos confirmam coisas que eu mesmo disse a eles anos atrás. Principia Discórdia o nome disso. Porem, não sei se sou eu, ou meus boatos. O mundo vira as costas quando olho firmemente para meu passado, e me pego lendo paginas e mais paginas mal escritas em um diário juvenil sem semântica ou concordância. Simplesmente palavras falando o que eu queria ouvir, ou queria ter feito. Sinto-me mal. Fraco. Pois não pareço eu. Um homem velho e cansado, sentado sobre meus chinelos puídos pelo tempo. Não há mulheres ao meu lado, não há filhos nem conquistas. Porem, ao folhar os diários vejo que há muitos anos era o que eu queria para mim. Isso esta anotado em um canto do diário, justamente no ano em que estou no meio de minha graduação, e parece tão lógico, tão certo, tão confortável que me pego sorrido por realizar um plano. Mas... será que eu jovem era assim? Conformista com meu próprio futuro? Desinteressado e desapegado? Sinto minha alegria ir embora por desperdiçar minha tenra idade com pensamento idiotas que agradariam a um eu velho. Mas mais para trás, aos meus 15 anos, vejo um outro jovem, que me anima, falando que quero realmente descansar quando velho, mas viver intensamente minha juventude. Isso esta por cima de rasura sem fim sob a pagina, após outra tantas rasgadas. Mesmo assim, vejo anotações e anotações sobre feitos, mulheres e conquistas, medalhas esportivas, prêmios e congratulações. E vejo que aquele jovem de 15 anos compactua com aquele de 20. E um eu de 30 sorri ao pensar que logo-logo poderei ler as coisas que quero. Sem aquela noiva cansativa.
Não me lembro de ter noivado. Meu irmão fala que foi na época em que estive na Argentina, três anos, o diário concorda com ele. Eu não me lembro da Argentina. Há uma passagem em que estou sentando em meu quarto admirando uma tabacaria. Sinto falta de meu cachimbo. E eu que não sabia que fumava.
Valeu à pena? Não sei. Não sinto cruzando o Bojador, como relata o eu de 40 anos, ao percorrer o caminho de Santiago. Ou meu delírio louco ao me formar na academia. Ou a vitoria sobre o Major no torneio de xadrez. Ou pior, quando impedi a morte de centenas em um trem, lutando bravamente contra um homem com dentes de aço.
De minha vida lembro-me dos filmes e livros, e estar sempre sozinho. Lembro da corrida triunfal dos jovens no Louvre, e o a alegria deles, acho que nunca sorri assim. Lembro de sempre ter Paris. Da dança louca e revigorante em Creta. De questões elementares que só conseguia entender no final. Das loucuras de Justine, e elas se confundem com as minhas. Vejo meu diário e vejo coisas loucas e maravilhosas que fiz com mulheres e mais mulheres. Anotações e detalhes. Sade me processaria talvez. Não lembro. Não me lembro de minha cama sendo ocupada com tanta luxuria e tensão. Não me lembro de sorrir como sorrio sentado na margem do Tejo. Não vejo em mim, o que sou. E o que trás minha própria vida e minhas lembranças escritas.
Não sei. Não sinto. Não lembro.
No sim talvez, somente as frases do eu garoto, aos 12 anos, ao começar os diários, faça sentido e tracem uma realidade sobre mim.
“Não: não quero nada.Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!A única conclusão é morrer.”
Não me venham com conclusões!A única conclusão é morrer.”

muito bom
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